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Memória Libertária

Documentos e Memórias da História do Movimento Libertário, Anarquista e Anarcosindicalista em Portugal

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Memória Libertária

07
Nov22

A greve dos lanifícios da Covilhã, em 1941: a última grande greve influenciada pelos militantes anarco-sindicalistas da CGT


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A greve dos trabalhadores dos lanifícios da Covilhã, em 1941, já depois de destruídos os sindicatos livres e com uma parte grande dos activistas sindicais  presos, fosse no Tarrafal ou noutras prisões do fascismo, foi a última grande greve influenciada e participada  por elementos anarco-sindicalistas  da antiga CGT.

A greve iniciou-se a 5 de novembro e teve como causa imediata a carestia de vida e os racionamentos provocados pela II Guerra Mundial.

Ferreira de Castro, o escritor anarquista, antigo colaborador de "A Batalha", proibida pelo regime fascista, escolhe a greve de 1941 e o ambiente social e operário da industria têxtil como a matéria-prima para construir o seu romance “A lã e a Neve”, cuja 1ª edição é publicada em 1947.

Descrevendo os momentos mais marcantes desta greve,  o Jornal do Fundão de 4/11/2021 refere que:

"Naquele dia 5 de Novembro de 1941, pelas 8 horas da manhã, cerca de cinco mil operários dos lanifícios da Covilhã e arredores iniciavam uma greve e punham-se em marcha a caminho do Pelourinho.  O comandante Ramos Paulo, da GNR da Covilhã, está no largo do município às 8,30h da manhã e pouco depois (como escreveu no relatório enviado ao ministro do interior) vê “uma grande multidão de operários de ambos os sexos a vir pela rua Direita em grande algazarra e atitude hostil…”  Já havia patrulhas policiais desde manhã cedo nas imediações das fábricas, junto às ribeiras da Carpinteira e da Goldra.

Com a lei do Estado Novo, Salazar proibira a greve e a oposição política, controlava os sindicatos numa estrutura nacional e encarava a paralisação do trabalho como um crime a punir severamente, o que abafava as tensões sociais e as reivindicações dos operários. A miséria vai-se agravando e, naquele mês de Novembro de 1941, a tampa salta com estrondo na cidade-fábrica onde laboravam mais de 130 empresas de lanifícios.

O escritor Ferreira de Castro, no seu livro “A Lã e a Neve” havia de escrever depois que “os operários viviam em casebres insalubres: homens de faces ocultas nas golas dos velhos sobretudos, mulheres embrulhadas nos xailes escuros e garotos de 12, 14 anos vestidos com remendadas roupas”.

 Os operários vinham reclamando aumentos de salário e, no mês anterior, uma comissão de operários das maiores fábricas apresentou ao sindicato um pedido para que houvesse um aumento de salários… Sem respostas, na noite de 4 de Novembro vão ao sindicato algumas centenas de trabalhadores que se mantiveram concentrados enquanto a comissão voltava a falar com a direcção do sindicato… Perdida a confiança na intermediação do sindicato, terá ficado ali combinado a greve para o dia seguinte.

As fábricas são patrulhadas e uma dezena e meia de operários são presos e levados para os calabouços que ficam na base do edifício dos paços do concelho (levados depois para cadeia política de Caxias). É para o Pelourinho que se dirige  “uma enorme multidão de mulheres e crianças, seguidas de perto pelos homens” exigindo a libertação dos presos. Chegam reforços policiais e um pelotão militar do quartel de Caçadores 2. Alguns feridos são levados para o hospital e um dos operários fica com uma perna amputada.

É a vigilância das fábricas e dos edifícios públicos. Uma equipa da PVDE, incluindo o subdirector Pessoa Amorim, deslocou-se para a Covilhã e começa a fazer interrogatórios.  Alguns operários influentes são convocados para demoverem os grevistas. O trabalho é retomado no dia 8 de Novembro, com promessas de que a situação seria remediada…

Porém, nada foi remediado e a 6 de Dezembro as fábricas voltam a parar.   Face a nova greve, o próprio Grémio dos Industriais de Lanifícios reúne em assembleia geral e, perante as “perturbações graves da vida social e económica da Covilhã”, envia a Salazar um telegrama a favor de uma melhoria salarial. Mas nada muda.

O governador civil, António Pinto Castelo Branco, manda a seguir publicar um comunicado ameaçando com pena de prisão e degredo aos grevistas. Os industriais são intimados a apresentarem listas de operários presentes e ausentes. Nem todos retomam o trabalho, mas a greve dilui-se.

O Notícias da Covilhã, dois meses mais tarde, refere-se à penúria que alastra na cidade e aos “bandos famélicos cobertos de farrapos”, apelando a  uma união das instituições de beneficência para “dar comida a quem tem fome e vestir os desenrpoupados”…

Só em 1943, viria a verificar-se uma aumento salarial, com um novo contrato colectivo para os lanifícios. Em 1946  as greves nos lanifícios  voltarão a agitar a Covilhã, com muitas dezenas de presos, incluindo mulheres, mas a ditadura acabaria por resistir e endurecer ainda mais a repressão.  Os alvos da “PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado” (em 1945 passa para PIDE e em 1969 para DGS – Direcção-Geral de Segurança), não eram só as organizações políticas forçadas à clandestinidade, mas também o próprio movimento operário, no qual o salazarismo procurava extinguir qualquer cultura de protesto e acção colectiva, enraizada na Covilhã.

Entre os operários presos e levados para Caxias, a polícia do regime procurava ligações a organizações políticas, mas não as encontrou. Os 15 operários quase todos jovens estiveram sete semanas em Caxias, com passagens pela sede da PIDE e pela prisão do Aljube. Um deles, Felisberto Fernandes, casado, com 28 anos de idade e analfabeto, após mais um interrogatório, viria a morrer no hospital de S. José.

Após anos e anos de controlo e repressão laboral em todo o país, o operariado da Covilhã, põe fim à resignação e surpreende o regime. “É o que vai desencadear os movimentos grevistas até 1946. Os operários dos lanifícios estiveram na vanguarda” – conclui o historiador António Rodrigues Assunção." (aqui)

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“E, então, pôs-se a olhar para os outros homens, vestidos de negro, que passavam na sua frente, caras que lhe eram familiares, operários da Aldeia do Carvalho, e da Covilhã, que ele conhecia da hora da saída das fábricas, dos diálogos no Pelourinho, das próprias ruas onde habitavam. À medida que iam passando, ele evocava as ideias, as embrionárias ansiedades que tinha ouvido a cada um deles, desde que deixara o cajado de pastor e viera trabalhar para as fábricas. E cada vez ele se sentia mais confortado, mais confortado cada vez, por verificar que quase todos os que passavam na sua frente pensavam como Marreta e como ele próprio pensava agora.

Viu Tramagal, Ricardo e João Ribeiro a descerem a calçada – e juntando-se a eles, Ricardo disse-lhe:

- No sábado à noite, vamos fazer uma reunião, aqui, na Covilhã, em casa do Ildefonso. Precisamos de continuar...Compreendes? Precisamos de continuar...Não faltes!

- Lá irei – respondeu. E voltou a sentir-se menos abandonado do que quando vira, momentos antes, enterrar Marreta e muito menos do que quando há anos, entrara para a fábrica. Parecia-lhe que uma secreta força, que ele desconhecia quando viera para ali, partia dos outros para ele e dele para os outros – ligando-os a todos e dando-lhes, com novas energias, uma nova esperança. Ao chegarem ao começo da Rua Azedo Gneco, onde ele vivia, Horácio despediu-se.

Mesmo ao andar sozinho na viela solitária, parecia-lhe que não ia sozinho." (*)

(*) Castro, Ferreira de, "A Lã e a Neve", citado por Cátia Sofia Ferreira Teixeira, na Dissertação de Mestrado em História Contemporânea "As greves dos operários de lanifícios da Covilhã no Inverno de 1941 -O início da agitação operária em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial", FCSH, Lisboa, Novembro de 2012

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Nesta greve é preso, entre outros operários, Felisberto Fernandes Berto, conhecido como "O Boga", a 7 de novembro, dois dias depois da paralização ter começado. Felisberto morrerá dias depois, ainda detido, no Hospital de S. José, em Lisboa.

Tendo nascido em S. Martinho, concelho da Covilhã a 18 de setembro de 1913, filho de António Fernandes Berto e Maria dos Santos da Piedade, operário têxtil, toma parte ativa nas greves das fábricas de lanifícios, participando, designadamente, na invasão da Fábrica Alçada, no dia 5 de novembro de 1941, pelas 14 horas, concretizada por uma multidão de operários e operárias.
Inicialmente, a exigência de melhoria salarial estava restrita a um sector da indústria de lanifícios – o sector de estambres – mas rapidamente alastra à totalidade do operariado da região.
Dez operários foram presos à saída da Fábrica Alçada. Os restantes serão presos como consequência de denúncias e um outro, nas manifestações de rua.
Segundo a PVDE, que destaca para a Covilhã o inspetor José Maria Branquinho, para proceder aos interrogatórios, na invasão da Fábrica Alçada destacam-se Gilberto Duarte, que então estava a prestar serviço militar e que será levado a julgamento no tribunal Militar Especial, e Felisberto Fernandes Berto.
Este operário foi entregue à PVDE pela PSP da Covilhã em 7 de novembro de 1941 e enviado para o Depósito de Presos de Caxias, sendo transferido, logo no dia 18, para a Cadeia do Aljube. Regressou a Caxias no dia seguinte e, no dia 1 de dezembro baixou ao Hospital de S. José, falecendo no Hospital do Desterro no dia 20 de dezembro de 1941, alegadamente com uma úlcera. Tinha 28 anos de idade. (aqui)

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aqui


 

19
Out21

MINAS DE ALJUSTREL: HÁ 90 ANOS UMA GREVE DE QUATRO MESES OBRIGOU OS MINEIROS A ENVIAREM OS FILHOS PARA OUTRAS FAMÍLIAS OPERÁRIAS DE BEJA, BARREIRO E LISBOA


Imagem

“Aos heróicos mineiros e metalúrgicos de Aljustrel”

Esta fotografia mostra diversas Associações de Classe e Sindicatos de vários pontos do País, com as suas bandeiras,  que em 1923 vieram apoiar e solidarizar-se com a greve dos mineiros de Aljustrel travada alguns meses antes. Muitas destas associações já tinham demonstrado a sua solidariedade quando os filhos dos mineiros – eventualmente alguns ou a totalidade das crianças que estão na foto –  foram recebidos em Beja, Lisboa ou Barreiro por famílias operárias, enquanto a greve decorria.

Em baixo publicamos dois artigos de jornal. Um datado de Outubro de 1922, publicado no jornal “O Século”, não assinado, em que se dá conta da greve nas Minas de Aljustrel e da chegada de um grupo de filhos de mineiros a Lisboa, que fugiam assim à fome e à falta de condições que os pais em greve não lhes podiam dar.

O segundo artigo foi escrito cerca de 90 anos depois, em Maio de 2012 e publicado, como opinião, no “Diário do Alentejo”, pelo psicólogo Marcos Aguiar. São as memórias ainda vivas de um passado de luta que deve orgulhar gerações de aljustrelenses a quem, por este ou aquele motivo, esta gesta heróica tem sido ocultada. O roubo da memória colectiva é um instrumento do fascismo e das ditaduras.

século

Os resultados de uma gréve

Chegam a Lisboa 19 filhos dos mineiros grévistas de Aljustrel, para se acolherem á proteção dos operarios da capital

Nas minas de Aljustrel declarou-se ha cêrca de um mez uma gréve que, até hoje, ainda não teve solução satisfatoria. Nem os industriaes transigem nem os operarios e estes debatem-se hoje na mais agonica das miserias. As suas reclamações são de mais tres escudos por dia, o que, junto aos 3$50 que ganhavam, lhes dava uma totalidade de 6$50, pouco mais ou menos o que tem qualquer operario em qualquer terra do paiz. Não transigem uns nem outros e assim as crianças, filhas dos mineiros, passavam já fome e inclemencias, o que, sabido dos operarios de Lisboa, resolveram estes tomar conta d’elas, mandando-as vir, para o que foi a Aljustrel um delegado da C. G. T. Antehontem partiram de Aljustrel para Beja 25, vindo depois 24 para Lisboa, por n’aquela cidade ter ficado uma, a cargo de uma familia compassiva. No Barreiro o operariado d’aquela vila tomou a seu cargo 5, chegando hontem, no comboio da manhã, 19 a Lisboa.

Estas eram esperadas por inumeras pessoas, que disputavam entre si a primasia no bemfazer.

A vinda das crianças, cujo aspéto não era feliz, como se calcula, deu logar a cenas comoventes. Bem cedo começam a sentir as agruras da vida os pobres inocentes que nenhuma culpa teem nos conflitos de que são vitimas. E bom seria que das lutas como esta não saisse apenas uma obstinada irredutibilidade. Essa leva apenas, como se está vendo, á miseria negra, aos prejuizos incalculaveis e á ruina economica das regiões onde se dá. Mais crianças se esperam por estes dias, pois parece que tão cedo o conflito não terá solução.

 (jornal O Século – 29.10.1922)

diariod do alentejo

O longo inverno dos mineiros de Aljustrel

Na passagem de 1922 para 1923, os mineiros da minha terra – Aljustrel – estiveram quatro meses em greve. Quatro meses que figuram na história do movimento anarcossindicalista como uma das mais longas paralisações de sempre, que colheu solidariedade em todo o País e, inclusivamente, além-fronteiras, junto do operariado do mundo industrializado de então. Muitos se identificaram com a causa dos mineiros de Aljustrel, documentada diariamente no jornal “A Batalha”, destacando-se um episódio, em particular, que me entusiasma e comove sempre que o evoco.
Tendo-se a greve arrastado por tanto tempo, a CGT (Confederação Geral do Trabalho) apelou ao proletariado nacional para que apoiasse os mineiros, ajudando os filhos dos grevistas. Assim, durante a greve dos mineiros de Aljustrel, mais de 200 crianças foram colocadas em comboios para serem recebidas e alimentadas pelos operários de Lisboa. A cargo do operariado de Beja ficaram 25 crianças e no Barreiro mais 50. Imagine-se um cortejo de centenas e centenas de pessoas em sofrimentos profundo, percorrendo o percurso que separa Aljustrel da estação de comboios do Carregueiro, para expedir voluntariamente os filhos da terra para as mãos de estranhos. Afigure-se o desespero que levou esta gente a tomar medidas tão extremas para proteger as suas crianças da miséria que a greve pressupunha. Invoque-se o medo que esta gente foi obrigada a dominar, tratando-se de tempos em que as greves eram reprimidas através do despedimento sumário e, não poucas vezes, pela violência e prisão.
Como é possível correr assim o risco de perder o pouco que se tem? Quem eram estas pessoas anónimas que afrontaram a todo–poderosa empresa mineira estrangeira? Mas o que moveu os meus conterrâneos para este gesto de afirmação social que envolveu tantos perigos? A resposta é complexa e ao mesmo tempo muito simples – a desesperança! Foi a desesperança perante as horríveis condições de trabalho e os baixos salários que levou esta gente simples a agir de forma tão radical. Em Aljustrel, no inverno de 1922/1923, da desesperança, nasceram heróis que, vencida a luta contra a prepotência do patrão estrangeiro, foram aclamados em todo o mundo industrializado como um exemplo a seguir.
Hoje, em Portugal, o desânimo é generalizado, ao ponto de alguns confundirem a “paz podre” que vivemos com a aceitação social das indignidades que nos são impostas. Não, não estamos em paz, estamos em torpor, incapazes de reagir a quem nos agride. Não, não estamos satisfeitos, estamos em apatia, observando, distantes, a forma como o País se carcome a si mesmo. Não, não estamos felizes, estamos em desesperança profunda, simplesmente ainda não conseguimos ter, nem por um momento, a mesma valentia dos mineiros de Aljustrel daquele longo inverno de há 90 anos.

Marcos Aguiar, Licenciado em Psicologia
 
(Diário do Alentejo – 19-05-2012)
 

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