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O Festival "Pela Vida Contra o Nuclear" realizado a 21 e 22 de janeiro de 1978 nas Caldas da Rainha foi um momentos mais altos da luta ecologista e anti-nuclear em Portugal. O projecto da construção de uma central nuclear em Portugal foi definitivamente (?) abandonado em 1982 depois de vários anos de forte contestação popular, em que diversos grupos e militantes libertários estiveram envolvidos.
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Dois anos antes, a 15 de março de 1976 os sinos tocam a rebate na pequena povoação de Ferrel, no concelho de Peniche, chamando a população a protestar contra os trabalhos iniciais para a construção duma central nuclear junto á localidade.
O projecto já vinha de trás, dos tempos do marcelismo, e foi retomado após o 25 de Abril de 1974.
“A 15 de Março em 1976, os 1500 habitantes de Ferrel (…) conseguiram impedir o avanço dos trabalhos. Esta manifestação marcou o início de um processo que culminaria com a desistência do projecto, tendo-se realizado até 1978 outras manifestações que contaram com o apoio de organizações ambientalistas internacionais.
(…) Por volta das 8 horas da manhã do dia 15 de Março de 1976, os sinos da capela de Nossa Senhora da Guia soaram a rebate. D. Crialmina, agricultora já falecida, tocou sem parar. Nem mesmo quando o badalo se desprendeu ela parou. Pegou nele e continuou a dar pancada no sino.
A população da aldeia e das povoações vizinhas acorreu, em força, juntando-se no largo da igreja, armada com todo o tipo de alfaias agrícolas. Enxadas, foices, sacholas, forquilhas, ancinhos, picaretas... Tudo servia para travar o 'monstro'. Foi dali que aquele aglomerado de pessoas – cerca de duas mil – marchou em direcção à serra, mais propriamente aos baldios de Moinhos Velhos, onde decorriam trabalhos de prospecção com vista à instalação de uma central nuclear. A missão era pôr fim a essas pesquisas.
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Mural em Ferrel
“Uns iam a pé, outros de motorizada ou montados em carroças de burro, tractores, camionetas ou até em cima de debulhadoras”, conta António Júlio Santos (antigo presidente de Junta), que morava no largo da igreja e que, assim que ouviu o sino, acorreu ao local. A viagem até ao alto de Moinhos Velhos, um trajecto com cerca de quatro quilómetros, demorou “mais de três horas”. “Aquilo era quase só areia. Altos e baixos. Não havia um caminho digno desse nome”, acrescenta, frisando que os trabalhos decorriam em “grande secretismo”. Nesse manhã, Tadeu Simões, já estava a trabalhar no campo quando ouviu o sino. “Larguei tudo e vim a correr”, recorda. Sem saber muito bem “ o que se estava a passar”, acompanhou a multidão, longe de pensar que iria participar num “acto heróico e corajoso do povo de Ferrel, a bem do País e da democracia”.
(…) O protesto popular foi imortalizado numa música. Em "Rosalinda" Fausto canta : "...e em Ferrel, lá para Peniche, vão fazer uma central que para alguns é nuclear, mas para muitos é mortal".
António José Correia, (depois presidente da Câmara de Peniche), era, na altura do protesto, colaborador do jornal local "O Arado". Recorda que a contestação à central nuclear juntou centenas de pessoas que "iam munidas dos seus instrumentos de trabalho, uns iam de trator, outros de bicicleta e outros de burro".
Apesar do aparato , da presença no local de centenas de pessoas e de muitos guardas da GNR, o protesto contra a central nuclear em Ferrel decorreu sem incidentes; "Não aconteceu nada, houve respeito mútuo. Foi uma manifestação pacífica".
António José Correia diz que a manifestação não teve o apoio de partidos políticos ou de associações ambientalistas. Foi genuinamente popular. Um "não" ao nuclear que se fez ouvir. A central de Ferrel nunca saiu do papel.” (aqui)
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Dois anos depois, quando se começava a falar, de novo, do projecto de uma central nuclear, realiza-se nas Caldas da Rainha a 21 e 22 de Janeiro de 1978 um Festival “Pela Vida contra o Nuclear” que juntou cerca de 3 mil pessoas, superando todas as expectativas dos organizadores.
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Neste protesto, que contou com um espetáculo musical com José Afonso, Fausto, Vitorino, Sérgio Godinho e Pedro Barroso, entre outros, estiveram presentes diversos anarquistas (a presença libertária nos movimentos ecologistas era grande na altura), desde A Ideia, à Voz Anarquista ou ao Satanás (um grupo de Almada, que editava um pequeno jornal) a colectivos dispersos pelo país.
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Numa edição especial de “A Ideia”, no n. 9 referente ao Inverno de 1977/1978, toda ela dedicada à relação entre Ecologia & Anarquia, destaca-se a luta anti-nuclear internacional e pode ler-se:
“Apesar dos Livros Brancos, eternamente anunciados, não é apenas Ferrel que está em causa. É talvez o Alentejo. É talvez a Bacia do Zêzere, onde a existência de amplas zonas militarizadas (Tancos, etc.) e uma população sem grande experiência de contestações e lutas, permitirá pensar aos políticos e tecnocratas que não irão ter grandes oposições sociais à concretização dos seus projectos…. Pela nossa parte esperamos, nem entendido, que se enganem redondamente”.
Curiosa é a noticia do jornal “Voz Anarquista” sobre este Festival. O jornal esteve presente e numa crónica de primeira página não assinada (Francisco Quintal?) o seu autor mostra-se solidário e galvanizado peloa forma como o protesto decorreu e pelo número de pessoas que acorreu às Caldas, mas não esconde as críticas à “desorganização” existente, nem à falta de espaços onde todos coubessem.
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"Caldas da Rainha
Um festival pela vida contra o nuclear decorreu e deve continuar
A pequena cidade de Caldas da Rainha, dentro da sua especial característica que faz dela, desde sempre e ainda hoje, uma jóia da Arte aliada às belezas naturais em que os habitantes conscientemente se integram, viu-se positivamente assaltada por uma multidão de pessoas cujo número ultrapassou e muito o habitual dos seus habitantes. Como todas as terras que vivem de um passado que, até certo ponto, as adormece à sombra de recordações, acordou estremunhada na manhã de sábado, 21 de Janeiro, por ecologistas de todas as tendências que vinham ali e em toda a região até Ferrel, já na orla do oceano, lançar forte e eloquentemente o seu protesto contra o Nuclear que uma ciência, a soldo do capitalismo, explorada por governantes sem escrúpulos e por homens ávidos de negócios, pretende justificar frente à natureza que se vê, de dia para dia, desfalcada das suas belezas, da suas virtudes e da sua seiva. Mas, os visitantes, conforme iam chegando viam- se aprisionados naquelas ruas estreitas, e em pouco tempo o programa, com tanto carinho elaborado, viu-se alterado, com o seu primeiro número, dedicado às crianças, posto de parte, por dificuldade de acomodação em que as crianças pudessem reunir-se e trabalhar, dando provas do seu talento natural, no que elas, por vezes, ultrapassam os adultos. E assim se passou naquela linha manhã, constatando-se que as Caldas não tem locais para abrigar mais que algumas centenas de pessoas. A Comissão do Festival não calculou que os números de visitantes fosse tão grande, pois de contrário teria de erguer, embora provisório, que depois seria definitivo, um parque, meio ar livre, coberto por um alpendre ornamentado onde coubessem, não centenas, mas os milhares de pessoas que ali acorreram. O que nos encheu de satisfação, e considerámos muito belo, foi o crescer daquela multidão que ia chegando para a realização do eloquente protesto de um povo que quer ser livre e são. Como dissemos, os trabalhos afinal só começaram depois das 14 horas.
Mas tudo, com ar de feito à pressa, programas negligenciados, tudo última hora, apressado em ar de família pouco meios, com poucas cadeiras e bancos, e instalação de um serviço de alimentação macrobiótica, no ar, em exígua instalação. Bem, membros da Comissão apareciam, a cada passo surgiam, cheios de gentilezas, dando facilidades, o que não seria preciso, se tudo já estivesse previsto e realizado. Consolámo-nos com o ambiente social em que todos se mostraram de um optimismo, duma confraternização encantadora. Nessa tarde começaram a instalar-se bancas de venda e distribuição de livros, folhetos e cromos e autocolantes, não só de ecologia mas de várias tendências políticas. Todos compreendendo a inter-ajuda, todos muito cheios do espírito de tolerância. «Voz Anarquista» montou a sua banca e ali fez o seu sucesso, nesse dia e no domingo. Viemos de lá com a consolação de que contactámos com gente que ficou surpresa de nos ver, que nos acarinhou, e com a clara visão de que a Anarquia está na alma do povo e que é indispensável gritar, sem rebuços esta palavra mágica, que os órgãos diversos do Poder – meios de difusão e meios de repressão – insistem em lançar na sombra. «A Ideia» - órgão de um grupo incansável de propaganda, ali montou banca, a nosso lado. Outras tendências políticas e sociais. E, vá lá, devemos dar primazia aos grupos ecologistas, aos macrobióticos, cujas bancas se viram quase assaltadas por compradores, ávidos de novidades. Reuniões destas, como constatámos, fazem falta. Para substituir as estúpidas embora tradicionais feiras regionais, exclusivamente votadas a um negócio sórdido, devia havê-las mês por mês. Festivais como este, deslocando o seu centro de concorrência e sempre com o mesmo objectivo: a defesa da Natureza, posta em risco pelo sistema capitalista que não olha a meios para atingir os seus fins. A presença destes milhares de pessoas nas Caldas foi um mar de confraternização cheio de grandes possibilidades. O povo não é aquela mola que os políticos pretendem moldar aso seus interesses; o povo vem até nós se nós formos ao seu encontro. O que é preciso é que as Comissões, previamente, realizem mais trabalho, não deixando para a última hora o trabalho entregue aos concorrentes. Também notámos em muitos dos concorrentes uma certa tendência para admitir uma primitiva acomodação ao meio. O que é preciso é um evolucionar dos meios, admitindo uma forma presente e não uma forma passada. Queremos a natureza elevada em todo o seu prestígio, dentro de um progresso contínuo e não de um regresso. Portanto, salientaremos que o que deu explêndida vida ao certame foi a própria multidão que acorreu.
No domingo, de manhã, Caldas ficou deserta, entregue ao seu mercado e às suas lojas de curiosidades artísticas, velha-menina remirando-se na sua própria beleza. Os ecologistas de todas as tendências foram a Ferrel lançar um eloquente protesto. É que ali, já no tempo de Salazar, foram construídos os alicerces de uma estação nuclear. E como a revolução de Abril, dos militares e de um povo enganado, mudou apenas de rótulos, mas continuou e respeitou as realizações fascistas, Ferrel tem sido objetivo da tentativa da prevista estação nuclear, o que prova que, quer no regime fascista, quer nos sucedâneos rotulados de democráticos e «socialistas» ou «comunistas», o regime capitalista sobrevive sempre. Em Ferrel, só a presença da multidão bastou para alastrar o eco de um protesto que não deve morrer. À tarde, voltámos às Caldas. As bancas. Ternura, fraternidade entre todos. A desorganização dos promotores continua à vista. Não há uma sala para conferências onde a multidão caiba. Caldas ainda trás em cima de si os vestidos justos dos séculos que já lá vão. Tem magníficos edifícios que ameaçam ruína e desmoronamentos. Falta-lhe um parque para dez ou vinte mil pessoas. O seu jardim-parque é uma maravilha. O Museu Malhoa é um modelo em qualquer parte do mundo. Visitando-o, uma comoção muito profunda, quase lacrimosa, invadiu-nos. Mas Caldas, ainda dorme. Deve acordar. Restaurar forças. Tornar-se cidade para toda a gente que vem de fora. Deixar de encolher-se em si própria. Nessa noite vieram falar uns oradores expressamente convidados. Falaram muito. Poucos os ouviram. A grande massa ficou de fora. O certame, que nos comoveu, acabou cedo, com música e canto. Zeca Afonso, com o seu gabão, modesto, simples, ali esteve. Vitorino, sempre libertário, também. Outros grupos igualmente. Apesar dos defeitos, o protesto valeu. É necessário que continue, noutras terras, enquanto Caldas se abre mais. Para uma vida que merece a pena viver. Por uma estrada nova que leva ao país da Anarquia.
(Voz Anarquista, nº 28 – Janeiro/Fevereiro, 1978)
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relacionado: https://www.campoaberto.pt/wp-content/uploads/2018/09/PELA-VIDA-1978.pdf



3) 36 anos depois, em Novembro 2012, surge o "Boletim Acção Directa", editado pelo Colectivo Libertário de Évora que se publica até junho do ano seguinte.




Avante 1 (Évora, 1 Agosto 1921)
Avante 2 (Évora, 14 de Agosto 1921)
Avante 3 (Évora, 28 de Agosto 1921)
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Segundo o historiador Vitor Sá, que se baseia em informações, por exemplo, de Edgar Rodrigues e Carlos da Fonseca, desde 1865 terão existido em Évora os seguintes jornais de cariz operário e mutualista: “O Clamor dos Artistas, 1865; A Ideia, 1877; O Correio Eléctrico, 1883; O Operário, 1889; A Aurora Farmacêutica, 1896; Mérito, 1900 (número único dos tipógrafos); A Alvorada, 1903; Avante!, 1909; A Voz do Caixeiro, 1909; O Trabalhador Rural, 1912; O Primeiro de Maio, 1914 (número único); Aurora Social, 1919; O Despertar, 1921”.


EDITORIAL DO Nº 2

O anarquista e antigo tarrafalista José Correia Pires nasceu em 1907, em Messines, no Algarve e morreu a 28 de Outubro de 1976, em Almada, onde residia. Um vida dedicada à militância anarquista primeiro em tempos de Republica; depois contra o fascismo, na clandestinidade e no Tarrafal; mais tarde, já em democracia, com a fundação do jornal Voz Anarquista e do Centro de Cultura Libertária, em Almada.
Carlos Gordilho, que o conheceu e acompanhou, recolheu alguns dados sobre José Correia Pires e coligiu-os, levantando a questão dele – tão prolixo na escrita – ter deixado tão poucos textos enquanto esteve no Tarrafal (8 anos) e lançando a pergunta: “após 46 anos da sua morte, emerge a questão da sobrevivência dos seus escritos do campo de concentração do Tarrafal. Os escritos deste autor desapareceram ou encontram-se depositados, organizados e indevidamente identificados em fundos documentais?”
O também tarrafalista António Gato Pinto, residente no Barreiro, foi um dos seus amigos e companheiro e a ele se deve ter guardado no seu espólio alguns textos de José Correia Pires, entre os quais a versão original do livro “A Revolução Social e a sua Interpretação Anarquista” (publicado em 1975).
Textos e anotações sobre José Correia Pires, anarquista, coligidos e contextualizados por Carlos Gordilho

José Correia Pires
"Podem chacinar-nos, podem algemar a liberdade, podem erguer uma prisão em cada lar e abrir uma sepultura em cada metro de terra! Os homens tombarão, mas as ideias nobres ficarão sempre de pé até que, por sua vez, possam triunfar sobre o último dos algoses".
(J. Correia Pires)

Campo de Concentração do Tarrafal onde José Correia Pires esteve preso durante 8 anos
1 – ONDE PARAM OS ESCRITOS DE JOSÉ CORREIA PIRES NO TARRAFAL?
O tarrafalista António Gato Pinto, nunca se declarou anarquista, mas era de orientação libertária. Entrou no campo de concentração do Tarrafal na primeira leva de prisioneiros, em 29 de outubro de 1936. Libertado, saiu em 1949. Conhece José Correia Pires no primeiro momento em que este chega ao campo, no dia 12 de junho de 1937. Ficam amigos por longos anos. E nessa posição de entreajuda, trabalham em conjunto, quando José Correia Pires instala uma carpintaria e uma loja de mobiliário, ambos os espaços na avenida D. Afonso Henriques, em Almada, e uma sucursal na Baixa da Banheira, Barreiro, área onde reside António Gato Pinto.
C. Pedro, pseudónimo de José Correia Pires, entra a 1 de março de 1946 no Comité Confederal, substituindo "Camilo", como elemento de ligação entre o Comité e o Conselho Confederal. No vigésimo nono ano da fundação do jornal «A Batalha», "apreciou-se o artigo de fundo escrito por C. Pedro para o próximo número de «A Batalha», que foi aprovado, embora Pinto e Lima (pseudónimos) tivessem feito algumas observações por causa das alusões à Rússia".
Esta referência à pratica de escrita de José Correia Pires, procura destacar a sua participação dotada de uma preparação intelectual e desambigua afirmação ideológica. Por esse motivo é surpreendente que lhe seja atribuído, isto no âmbito do espólio de António Gato Pinto, a autoria de só dois manuscritos (um artigo de fundo que circulou no sector libertário do campo (1938) e uma carta de despedida (1945) em co-autoria com José Rodrigues Reboredo, quando saiu do campo), tendo-se em conta que antes de ser deportado, em 1937, para o campo de concentração do Tarrafal, onde permaneceu oito anos, já publicava artigos de opinião na imprensa regional do sul do país. No período do seu exílio em Espanha (1932), editou um número do órgão da Federação Anarquista de Portugueses Exilados, «Rebelião», inserindo nesta publicação com 25 páginas vários artigos da sua autoria.

Imagem: visita de Edgar Rodrigues (à direita) a Paiva Moura, em Almada.
2 - PERFIL BIOGRÁFICO DE JOSÉ CORREIA PIRES, POR EDGAR RODRIGUES.
Correia Pires nasceu em Messines, Algarve no ano de 1907.
Ali aprendeu três importantes conhecimentos: a ler, a profissão de carpinteiro e as ideias anarquistas.
Pouco depois ingressa nas Juventudes Sindicalistas e luta até ser preso em 1932, sendo então conduzido para o Aljube de Lisboa.
Libertado, volta à luta e participa do movimento de 18 de Janeiro de 1934. Mas o insucesso deste obriga-o a exilar-se em Espanha onde chega clandestinamente.
Ali viveu algum tempo sem conseguir emprego. Foi o seu amigo José Rodrigues Reboredo quem lhe conseguiu meios para sobreviver pelo seu próprio esforço.
Antes de explodir a revolução em Espanha retorna a Portugal e depois de viver na clandestinidade por algum tempo, trabalhando no sector da Federação Anarquista da Região Portuguesa (F.A.R.P.) acaba preso, processado e enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, de onde regressou combalido, praticamente incapaz fisicamente de exercer a sua profissão.
Assim mesmo não perdeu as convicções anarquistas. Lutou sempre escrevendo e dando exemplos de tolerância, de bondade e de coerência libertária.
Estudou na universidade da vida que lhe abriu suas portas bem cedo, e nela conseguiu grandes conhecimentos, uma excelente cultura sociológica, tornou-se um autodidacta respeitável, um homem bom!
Escrevia e falava sem dificuldades, com fluência, raciocinava progressivamente, fora sempre um anarquista actualizado.
Com o derrube da ditadura fascista portuguesa, uniu-se aos seus companheiros que haviam escapado aos 48 anos de perseguições. A todos movia a mesma intenção: publicar A Batalha. Mas o comportamento autoritário, de intolerância e o desejo de supremacia de alguns sobreviventes, fê-lo retornar a Almada e com Francisco Quintal, Sebastião Almeida, Jorge Quaresma, José Eduardo, Paulo Lola, Adriano Botelho, entre outros, fundar Voz Anarquista, onde colaborou até morrer, em Outubro de 1976.
Antes, porém escreveu a publicou 2 livros: Memórias de Um Prisioneiro do Tarrafal e A Revolução Social e a sua Interpretação Anarquista.
Pode dizer-se que Correia Pires se realizou, assistiu à derrocada da ditadura fascista portuguesa, ao desfalecimento dos seus algozes, a famigerada P.I.D.E., pôde ajudar a fundar um jornal genuinamente anarquista e morreu como viveu, de bem consigo mesmo, com o seu Eu, homem bom como sempre fôra.
(in Edgar Rodrigues, «A Oposição Libertária em Portugal - 1939/1974», pp. 203)

3 - O PAPEL DE JOSÉ CORREIA PIRES, NO REAPARECIMENTO DO MOVIMENTO ANARQUISTA ORGANIZADO
É um elemento do grupo anarquista de Almada «Luz e Vida», e a partir de março de 1946, é também membro do comité confederal da C.G.T..
"Informei então das tentativas feitas no sentido de dar vida ao anarquismo militante, com organização própria, a primeira por um grupo de Lisboa, da qual fazia parte o camarada Lima, há perto de dois anos, que distribuiu um questionário aos camaradas e grupos anarquistas conhecidos e em actividade, pedindo a sua opinião sobre os vários pontos apresentados, entre os quais estava o sistematizado que devíamos optar de relação com o movimento operário. Era intenção do grupo distribuidor do questionário fazer uma publicação com todas as respostas recebidas e se as mesmas fossem favoráveis á organização específica dos anarquistas ou à criação dum simples comité de relações entre os grupos autónomos, convocar todos os grupos e camaradas para uma conferência plenária onde se tomariam acordos definitivos, num ou noutro sentido.
Só dois grupos, de lisboa, mandaram resposta ao questionário. Ultimamente um grupo de Almada, "Luz e Vida", distribuiu uma circular interessando os camaradas anarquistas na sua organização regional."
(Texto extraído do relatório do delegado da C.G.T. a Coimbra em 8 de novembro de 1947, in Edgar Rodrigues, «A Oposição Libertária em Portugal - 1939/1974», pp. 298-307)
Observação: o camarada Lima é o anarquista Adriano Botelho. A carta-questionário foi distribuída no ano de 1945. Mais tarde, em 1982, foi publicado no livro de Edgar Rodrigues, por nós aqui destacado, pp. 95-97. O relatório está assinado por Vicente, pseudónimo de Vivaldo Fagundes, e pelas letras M.R. (Moisés Ramos), Lisboa, 8/11/1947. Aquando da sua chegada a Lisboa, no regresso do campo de Concentação do Tarrafal, onde permaneceu oito anos, José Correia Pires foi libertado no Forte de Caxias, a 9 de março de 1945.

http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=10439.005
4-GRUPO ANARQUISTA DE ALMADA (CLANDESTINO) «LUZ E VIDA»
O grupo anarquista “Luz e Vida” é o grupo anarquista de Almada (clandestino), que depois de 25 de Abril de 1974 veio a designar-se “Grupo Cultura e Acção Libertária”, editor do jornal Voz Anarquista.
“Prezados camaradas:
Subordinados à ideia de dar às actividades dos anarquistas portugueses um carácter homogéneo e eficiente, tanto na defesa e empenhamento do anarquismo, como na conquista de mais liberdade [...], foi, por um grupo anarquista de Lisboa, distribuído uma circular questionário, que este grupo (Luz e Vida) considera oportuno e assás interessante e à qual nos propomos responder:
A) organização especifica - à pergunta feita se veem os indivíduos continuarem a agrupar-se à base de afinidade ou entre os que vivem mais próximos, diremos: - o princípio de afinidade deverá ser sempre o preferido, não só como determinação a nosso princípio ideal mas muito especialmente como exigência de um maior aproveitamento do nosso labor revolucionário e ideológico, sabido com é que todo e qualquer empreendimento reclama sempre muita compreensão e geral entendimento entre os respectivos empreendedores. Diz-nos a experiência que quando não há a verdadeira afinidade entre um agrupamento, uma organização perde-se um tempo enorme com discussões inúteis e dificilmente pode surgir trabalho eficiente e valioso de agrupamentos que não assentem no princípio de afinidade. Assiste-se muitas vezes entre camaradas nossos a discussões estéreis e facilmente altercando-se sem motivo justificado exactamente por não haver entre si muita simpatia e menos afinidade, explodindo por vezes tempestades pouco edificantes e que em nada nos elevam. Significa isto, que o princípio de afinidade é entre nós o preferido, embora não deixemos de reconhecer que onde não seja possível a sua total aplicação, por falta de elementos ou ainda pela sua dispersão, se opte por qualquer sistema, sendo forçoso onde hajam anarquistas que se agrupem, pois se outros motivos não houverem a forçar os nossos vinculos e a nossa aproximação, bastam-nos a nossa comum repulsa pelo autoritarismo e apêgo às ideias de liberdade.
B) como se devem relacionar-se os grupos e indivíduos isolados? O anarquismo é essencialmente contrário a todo o princípio de uniformidade, a toda a ideia totalitária, por contrária à diversidade da vida e inimiga do princípio de liberdade e por isso em nenhuma das suas actividades ou desdobramentos persiste um critério rígido, inflexível, sendo notória uma maleabilidade quer no tempo quer no espaço, no referente a tática e método de luta, contrariamente ao que dizem e supõem os seus detractores. É por isso que não podemos estabelecer que as nossas relações tomem este ou aquele carácter uniforme, dado que o que não se pode fazer aqui se não poderia fazer ali e o que convenha a uma realidade pode não convir a outra. Significa isto que serão sempre as circunstâncias que terão a última palavra e os camaradas das respectivas localidades deverão ver qual o processo que melhor sirva as necessidades das nossas actividades relacionadoras. Isto quanto às relações individuais e de grupo para grupo. No referente às relações nacionais, cremos indispensável um comité relacionador que não só estreite relações com todos os grupos e camaradas isolados, como até procure compulsar as necessidades e iniciativas gerais e dar-lhes a expansão correspondente. É forçoso acentuar que em qualquer agrupamento anarquista a pratica dos princípios federalistas são sempre a sua norma e por princípios federalistas se compreende a pratica das normas gerais das actividades com observância rigorosa dos princípios de liberdade, que dizem salientar a possibilidade e conveniência do indivíduo livre no grupo livre e este dentro da realidade, e assim em toda a ordem social. Tanto em tempo de repressão como de liberdade, as nossas relações deverão ser sempre mantidas com a máxima precaução e cautela, optando materialmente pelos métodos que a experiência aconselhe. Neste sentido também não pode haver um critério único, para cada caso terão os camaradas encarregados dessa função que escolher o que menos perigos garantir.
Propaganda - Independentemente do que cada grupo ou indivíduo isolados possamos fazer, cremos ser de absoluta necessidade a criação de um comité ou secretariado de propaganda, coordenando tudo que possa concorrer para a disseminação e esclarecimento das ideias e problemas que com as mesmas se prendam e que aceitamos a ideia de um órgão na imprensa com carácter fraccional, ainda que com o apoio geral, sabido como é que de outro modo seria desbaratar energia e tempo.”
Observação: Concordante com o seu próprio estilo de escrita, o autor do texto deve ser o José Correia Pires.

Imagem: o texto original «A Revolução Social e a sua Interpretação Anarquista» com 21 páginas, datado de 18 de Fevereiro de 1938, encontra-se inserido no espólio de António Gato Pinto, deportado no Campo de Concentração do Tarrafal, e depositado na «Casa comum-Fundação Mário Soares», pasta 10439.001.014. Na "Introdução" da presente edição do texto que redigiu em 1971, editado em 1975, José Correia Pires escreve com imprecisão, informando o leitor que o texto circulou no Campo aí por volta dos anos 39, não está certo, e isso é prova que não teve oportunidade para dissipar a dúvida, isto é, de consultar o texto original de sua autoria. António Gato Pinto, morreu em 1973.

José Correia Pires, (1907-1976,) discursa no encontro anarquista celebrativo do 1º Maio de 1974, na cervejaria Canecão, em Cacilhas, ladeado pelos companheiros, à esquerda, Sebastião Almeida. À direita, Emídio Santana e Francisco Quintal.
5 - RELEMBRAR A MUTAÇÃO DO GRUPO ANARQUISTA (CLANDESTINO) DE ALMADA. O MESMO GRUPO DEPOIS DO 25 DE ABRIL DE 1974, PASSA A SER DESIGNADO «GRUPO CULTURA E ACÇÃO LIBERTÁRIA», EDITOR DO JORNAL VOZ ANARQUISTA.

Nesta "Acta", no ponto 1º, é referido a questão do Movimento Libertário Português e a publicação do jornal A Batalha. A tensão dos companheiros veteranos de Almada, com o grupo informal reunido à volta de Emídio Santana, aquando da edição em Setembro de 1974 do mencionado jornal, tem uma proveniência anterior. Ou seja, está na origem do apelo politiqueiro de Santana a candidaturas eleitorais dos anarcosindicalistas para os municípios; "O Emídio Santana, depois de sair da prisão, tentou formar um grupo político para concorrer às eleições municipais - ele e o Germinal de Sousa, filho do Manuel Joaquim de Sousa. Publicaram um manifesto e por causa disso houve uma grande bronca com os companheiros, mais ou menos chefiados pelo Correia Pires." (1)
Claro, a tensão foi acentuada, quando o Santana e os seus acólitos se apropriaram de todas as verbas enviadas do estrangeiro para o Movimento Libertário Português, aplicando esse fundo nas despesas com a produção do jornal A Batalha. Eu assisti à discussão levantada pelos companheiros Paulo Lola (elemento da FAI) e José Correia Pires, ambos delegados do GCAL, em oposição ao senhor pseudo anarquista Moisés Ramos e todos os outros implicados que acompanharam o Santana. Passaram-se quatro meses, entretanto, como águas paradas não move seja o que for, os veteranos anarquistas em conjunto respondem editando o jornal Voz Anarquista, que começa a circular nas bancas em Janeiro de 1975.
(1) José de Brito, Retalhos da Memória, in Utopia, nº4, Outono-Inverno de 1996, pp. 63-68.

http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=10439.011
6 - OUÇA ZACARIAS
O anarquista José Correia Pires, operário carpinteiro, sem nunca ter chegado a ser trabalhador efectivo na Companhia Portuguesa de Pesca, no sitio do Olho de Boi, aqui trabalhou dois anos e tal, isto quando se instalou em Almada, em 1945.
O documento que transcrevemos está do seguinte modo identificado: trata-se de um manuscrito reproduzindo uma carta de um carpinteiro (anónimo), após o seu despedimento. Documento de 8 páginas, com o título "Ouça Zacarias", é datado de setembro de 1947. O documento está inserido no espólio de Antonio Gato Pinto, ex-guarda nacional republicano e ferroviário, prisioneiro e amigo do Tarrafal de José Correia Pires.
“OUÇA ZACARIAS!
O que vou dizer-lhe não é propriamente uma explicação, que não lhe devo, mas antes um desabafo que não resisto à tentação de lhe fazer, exactamente porque a despeito da decepção porque me fez passar ainda tenho por você alguma consideração. É meu desejo que não veja nestas simples linhas mais que o desejo de o fazer pensar alguns minutos no meu caso, que você julgou arrumado com o meu despedimento, e que pondere as razões que tenho para estar ressentido e confessar que me enganei acerca da sua amizade e do que me prometeu, sem nada lhe ter pedido.
O que me acaba de suceder estou firmemente convencido que em nada o incomodou e nem o conteúdo desta carta lhe merecerá o menor interesse. Ora não importa. Há coisas que nos ocorrem que só nós as valorizamos, precisamente porque só nós as sentimos e compreendemos devidamente. Depois, que importa uma injustiça na pessoa de um simples operário se todos os dias e a todas as horas se praticam infâmias na pessoa de milhões? Que importância pode revestir o caso de se despedir um operário que se considera bem comportado e em tudo cumprindo os seus deveres numa fase em povos inteiros se humilham e se deprimem? Não, num mundo onde só prepondera a injustiça em nada, absolutamente em nada, conta a desconsideração e injustiça de que eu me considero vítima e nem eu quero que você lhe dê mais importância que a que lhe mereceu quando pensou incluir-me na lista dos que iam ser despedidos. Que pretendo então? Dizer-lhe que o seu espírito de justiça e lealdade está profundamente embotado e que perde muito no meu conceito todo o indivíduo que não cumpre o que promete, qualquer que seja o motivo do seu não cumprimento e muito mais quando simples futilidades são o motivo de tal procedimento. Não sei as razões que possa ter a meu respeito, mas o respeito pela sua própria dignidade e muito especialmente em obediência a uma situação que aí criei (e foi você que inicialmente mais para tal contribuiu) era forçoso da sua parte proceder de maneira diferente daquela que procedeu. Mais que uma vez e mais que um indivíduo me asseveraram espontaneamente que enquanto você estivesse à frente dos trabalhos da carpintaria eu não sairia do Olho de Boi, e isto, certamente, foi você quem propalou. Mas não foi pelo que outros me disseram, apenas guardo bem vivo na minha memória o seu prometimento de efectividade na casa, embora, como é lógico que assim fosse, nunca nada a tal respeito lhe tivesse pedido. Que aconteceu para que passados dois anos e tal de casa (situação que por si só já me dava o direito de não ser despedido por dá cá aquela palha) ser assim despedido? Disse-me você que tinha ordem para reduzir ao mínimo o pessoal e que não iria despedir carpinteiros mais velhos que eu na casa, deixando-me ficar. Absolutamente de acordo e não serei eu quem condene um tal proceder. Mas procedeu você assim? Não, e considero que os despedimentos que você ultimamente aí fez foram de uma injustiça a toda a prova e para um espírito recto e justo seriam motivo forte para sentidos arrependimentos e remorsos para toda a vida. Mas o meu caso é o mais flagrante e nunca pensei que você procedesse para mim como realmente procedeu!
Acredite que um dia me falaram muito mal de si, mas julguei estar em presença de um despeitado e não acreditei. Mais tarde mostrou-me uma ou duas cartas anónimas que também as não tomei a sério e até me revoltaram especialmente porque sempre detestei o anonimato, quando se acusa. Depois disto tudo confesso que se alguma vez mais ouvir falar mal de você não terei a mesma atitude de descrença que antes mantive. Porquê? Apenas porque embora o não considere um indivíduo mau, depois do que me fez sei que não é suficientemente cauteloso na não prática de qualquer injustiça que o ponha na alçada da critica e dos reparos dos que possam ser afectados ou tenham por habito criticar o que não for razoável e justo.
Durante o tempo que aí trabalhei pude verificar que na luta que você mantinha entre a defesa dos interesses da Companhia que você representa, e a defesa dos operários que por sentimentos e responsabilidades contraídas pelas suas afirmações em parte lhe competia defender, a sua conduta interpretei-a como bastante equilibrada e até com certa inteligência, sempre mais inclinado a defender os que na verdade mais necessitam que os defendam. Significa isto que como mestre não o considero pior, outrotanto não dizendo se se trata de camarada ou simplesmente de amigo. O que me fez tenho-o como uma grande deslealdade e, para melhorar a compreensão, ponha-se no meu lugar e veja se é ou não lamentável o que me aconteceu, partindo de um indivíduo de quem não esperava, não porque fosse meu desejo que não acontecesse, mas tão somente porque até no último momento conseguiu enganar-me sem necessidade nenhuma de o fazer. Não acha que tendo você tornado a resolução de me despedir que mo devia ter dito franca e lealmente quando me comunicou que o Victor Hugo também estava despedido e que tivesse eu paciência? Quando me disse que “nos puséssemos a pau” porque não disse concretamente o que pensava fazer? Admito ainda que vacilasse e temesse directamente dar-me assim essa notícia (no seu foro íntimo você tinha consciência do que isso representava), mas não merece perdão de me não ter dito o que pensava definitivamente fazer quando me dirigi, pedindo que me explicasse o que queria dizer aquele “ponham-se a pau” e que terminou por me dizer que me fosse aguentando e que se não pudesse aguentar que me diria com antecedência. Reconsidere bem este seu último prometimento e veja que nesse mesmo dia entrava de licença e com a lista dos que iam ser despedidos nas mãos dos seus operários-chefes e no número dos quais não hesitou em me incluir. Como classificaria você um indivíduo que o tivesse como amigo e lhe fizesse uma partida destas?
Não quero nem devo continuar, e termino por lhe asseverar que sofri uma grande desilusão exactamente por o ter tomado a sério. Mas já estou curado e presentemente só lamento o tempo que aí trabalhei que talvez noutros locais teriam modificado em parte o meu modo de vida. Sem mais não lhe prometo utilidade mas garanto-lhe que nunca lhe serei prejudicial.
Observações:

Instalações da Companhia Portuguesa de Pesca, Olho de Boi, Almada
Sobre José Correia Pires, autor de A Revolução Social e Sua Interpretação Anarquista (disponível aqui) ver textos de Irene Pimentel (aqui) e de Maria João Raminhos Duarte (aqui) e do próprio Correia Pires (aqui). Para uma contextualização dos anos 30 no movimento anarquista ver o artigo de Paulo Guimarães “Cercados e Perseguidos: a Confederação Geral doTrabalho (CGT) nos últimos anos do sindicalismo revolucionário em Portugal (1926-1938)” (aqui), a tese de doutoramento de Antónia Gato "Tarrafal: resistir como promessa. O poder de transformar uma experiência de opressão numa história de grandeza" (aqui) ou, sobre a reconstituição do movimento anarquista pós 25 de Abril de 74, o artigo de Carlos Gordilho "Vestigios da vida do "outro" anarquismo em Almada" (aqui)
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