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Memória Libertária

Documentos e Memórias da História do Movimento Libertário, Anarquista e Anarcosindicalista em Portugal

Documentos e Memórias da História do Movimento Libertário, Anarquista e Anarcosindicalista em Portugal

Memória Libertária

04
Fev23

4 de fevereiro de 1977: manifestação anarquista no Rossio pela libertação do português João Freire, preso em Barcelona numa reunião da FAI


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Arquivo Portal Anarquista

Em Janeiro de 1977, quando em Espanha o movimento anarquista e anarcosindicalista se tentava reorganizar, depois da morte de Franco, já na chamada "transição", uma reunião da FAI, em Barcelona, foi interrompida pela polícia e os participantes presos. Entre eles, em representação da FARP (Federação Anarquista da Região Portuguesa), estava João Freire (1), que conta detalhadamente este episódio no seu livro autobiográfico "Pessoa Comum no seu tempo", (pgs. 453-459).

Informados da prisão de João Freire, alguns dos grupos constituintes da FARP defenderam que deviam tomar posição sobre esta prisão e comvocaram um protesto público, no Rossio, para 4 de Fevereiro, quase uma semana depois das prisões, que tinham acontecido no domingo anterior, 30 de janeiro.

A convocatória da manifestação refere que "ao contrário do que os órgãos de informação têm propalado, foi preso no passado domingo um anarquista português: João Freire, ex-exilado em França do regime salazarista. Simultaneamente, é encarcerado em toda a Espanha um elevado número daqueles que se opõem à paz podre do Sr. Suarez e dos seus avalizadores ocidentais".

E acrescenta: "Nós, que não somos discretos nem tememos as repercussões políticas dos escândalos diplomáticos, não abdicamos de nos solidarizarmos com o nosso companheiro e com as demais vítimas da repressão".

Conclui ainda o comunicado. "Assim, apelamos a todos os revolucionários a participarem num movimento de solidariedade, o mais amplo possível, que se inicia hoje às 19 horas, com uma manifestação no Rossio.

PELA LIBERTAÇÃO DE JOÃO FREIRE E DE TODOS OS PRESOS ENCARCERADOS NAS MASMORRAS ESPANHOLAS!

NÃO ÀS PSEUDO-LIBERALIZAÇÕES, SIM À REVOLUÇÃO SOCIAL!"

Assinam a convocatória os grupos anarquistas Acção Directa, A Ferro e Fogo, Lanterna Negra, Os Solidários, Liberdade, Núcleo de Intervenção Anarquista e Indivíduos Anarquistas.

Sobre a manifestação (em que não esteve presente) também se referiu João Freire no livro atrás citado, diminuindo a dimensão da solidariedade então manifestada e reduzindo-a a uma caricatura. Para a manifestação não foi pedida autorização e, na verdade, esteve presente um grande contigente da polícia, tendo havido confrontos com alguns manifestantes, bem mais do que "a meia dúzia" referida por João Freire, na passagem que dedicou a esta manifestação na sua autobiografia.

"(...) Na FARP, as atitudes divergiram (como seria de esperar) (2). Enquanto a maior parte, preocupada, acatou sem qualquer dificuldade esta orientação, o grupo "Acção Directa" queria passar imediatamente à "agitação de rua". E foi contrafeitos que se retiveram durante alguns dias, parece que dando uma espécie de ultimato ("o mais tardar na sexta-feira..."). Assim, quando eu já sobrevoava a meseta ibérica a caminho de casa, eles estavam distribuindo panfletos na Cidade Universitária sobre o "Anarquista português preso em Espanha" e convocando uma manifestação de protesto para o fim da tarde na Praça da Figueira (sic). Disseram-me camaradas que a observaram (mas não se envolveram nela) que foi mais um triste espectáculo, com a praça cheia de polícias e meia dúzia de jovens excitados pelos slogans bombásticos do Gabriel Mourato (do tipo "Morte ao Estado e a quem o apoiar! Morte à polícia!", completamente isolados e recebendo dichotes ríspidos e mesmo ameaças dos passantes e de grupos de "retornados" que ali estacionavam ("Vão mas é lá para a Rússia...") e o "líder" espumando raiva e impotência por todos os poros!"   - João Freire, "Pessoa Comum no seu tempo", (pg. 459).

Um relato pouco preciso do que aconteceu, mas que dá conta do ambiente que já se vivia na FARP (a Acção Directa e outros grupos abandonaram mesmo a organização durante este ano) e que haveria de agravar-se com a participação de João Freire no Congresso Anarquista de Carrara, um ano depois, de que o grupo Acção Directa se dessolidarizou e criticou de forma pública e violenta as decisões ali tomadas, nomeadamente acerca da violência revolucionária, tendo a FARP sido dissolvida oficialmente em Novembro de 1979.

1) João Freire, sociólogo, professor universitário reformado. Frequentou o Colégio Militar, oficial da Armada, desertou em 1968 da guerra colonial, depois exilado político em França. Fundador da revista "A Ideia" e da FARP. Investigador sobre o anarquismo e as lutas sociais na 1ª República. Ex-anarquista. Publicou como testemunho deste afastamento dos ideais anarquistas o livro Um projecto libertário, sereno e racional (Lisboa, Colibri, 2018).

2) Segundo João Freire, o advogado que seguia o seu caso, "Joaquim Pires de Lima, com escritório em Cascais", teria aconselhado a "não levantar "burburinho público" durante uma semana, para a hipótese de as coisas se resolverem pelo melhor,; se eu não fosse libertado nesse prazo, podia então pensar-se que eu estava judicialmente em má posição (sob alguma acusação grave) e dever-se-ia agir por outros meios".

Freire, João " "Pessoa Comum no seu tempo - Memórias de um médio burguês de Lisboa na segunda metade do século XX", Edições Afrontamento, Lisboa, 2007.

 

02
Fev23

Ricardo Castelo Branco, anarquista e activista social


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A 2 de fevereiro de 2015, vitima de doença, morria Ricardo Castelo Branco, anarquista e activista social. Na sua página de facebook – rede social em que animava também uma página com informações das lutas sociais (A Luta) –  foram muitas as mensagens de pesar, de amigos e companheiros. Como esta: “Morreu o Ricardo, um dos lutadores mais acutilantes e doces que conheci. Fazia parte daquela tribo de piratinhas da FCSH (nele era quase literal) que passaram a vida a lutar, a distribuir afectos, a chegar aos encontros como se nos tivéssemos visto, discutido, sonhado juntos e abraçado na véspera. Estava doente. Estava doente outra vez. Foi demais. Ainda noticiou por aqui o regresso aos tratamentos. Mas foi demais. Querido Ricardo. A última vez que o li aqui foi num post que lançou às ondas a 8 de Janeiro: “agradecia-te que parasses de fazer merdas”. Assim, sem mais nada. E cada um que nadasse como pudesse. Bons mares, Ricardo.” (aqui)

aqui: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/02/02/morreu-ricardo-castelo-branco-lutador-e-activista-social/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/02/09/a-memoria-de-ricardo-castelo-branco-ate-sempre-companheiro/

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02
Fev23

Alfredo da Costa e Manuel Buiça: os dois regicidas que impulsionaram o fim da monarquia em Portugal


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No dia 1 de fevereiro de 1908 o rei D. Carlos e  o principe herdeiro Luís Filipe foram mortos no Terreiro do Paço, em Lisboa, por dois carbonários, próximos dos ideais anarquistas. Foi o principio do fim da monarquia, tendo a República sido proclamada menos de dois anos depois a 5 de outubro de 1910.

Os autores materiais do atentado foram Manuel Buiça e Alfredo da Costa, um de Trás-os-Montes, o outro do Alentejo, os dois também mortos nesse diaem consequência do atentado, embora permaneçam dúvidas acerca do verdadeiro número de implicados (entre os quais o próprio escritor Aquilino Ribeiro, na altura um jovem militante anti-monárquico).

Rapidamente os dois autores do atentados foram celebrados como heróis, dado o descrédito a que a monarquia portuguesa tinha chegado.

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Alfredo da Costa - Nasceu em Casével, filho de Manuel Luís da Costa e Maria João da Costa. Veio cedo da sua aldeia no Alentejo, no concelho de Castro Verde. Tendo aprendido as primeiras letras na sua aldeia natal começa a trabalhar como Empregado do comércio num estabelecimento que um tio seu abastado e lojista tinha estabelecido em Lisboa onde presidiu à Associação dos Empregados do Comércio de Lisboa

Torna-se mais tarde caixeiro-viajante por conta própria pois teria cortado relações com este tio correndo o país.
Sendo um autodidacta e rebelde funda em Angra do Heroísmo um jornal para defesa dos empregados do comércio, e tão bem conduziu a campanha que as suas reivindicações foram aceites e começaria a vigorar nessa ilha o repouso semanal. Nesta cidade também impulsiona o Núcleo da Juventude Anarco-Sindicalista.
Em 1903, em Estremoz, fez intensa propaganda republicana e daí começou a colaborar nos jornais de classe da capital. De entre algumas tiradas tem esta: "Se os senhores representantes da Nação mais uma vez nos votarem ao olvido, resta-nos a certeza de que os marmeleiros ainda crescem nos pauis" (escreveria ele em 1903) e "Tentar esmagá-lo (o opressor) num justificado impulso de revolta é um dever de todos nós" (dizia ainda em 1906).
Mediante um pequeno capital, emprestado por mão amiga, fundou uma pequena empresa de livraria, A Social Editora com Aquilino Ribeiro, onde foram editados alguns folhetos contra o regime. Esta encetou ainda a publicação em fascículos, distribuídos aos domicílios, do romance de índole popular, A Filha do Jardineiro (romance que através da ironia dava machadadas na carcomida árvore real de sete séculos, na empresa embrionária e mal sucedida consumiu este as suas poupanças, que não eram muitas.
 

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Manuel Buiça - Nascido em Bouçoães, Trás-os-Montes, filho do reverendo Abílio da Silva Buíça, pároco de Vinhais, e de Maria Barroso, conhecem-se-lhe duas ligações conjugais. A primeira, entre 1896 e 1898, e a segunda com Hermínia Augusta da Costa, de que resultaram dois filhos - Elvira Celeste da Costa Buíça (nascida a 19 de dezembro de 1900) e Manuel Augusto da Costa Buíça (nascido a 12 de Setembro de 1907) que, à data do regicídio tinham sete anos e cinco meses, respectivamente. Cerca de cinco meses antes do Regicídio, Manuel Buíça enviúva.
Homem de carácter expansivo e exaltado, não mantinha, no entanto, muitas ligações exteriores ao seu círculo profissional e, frequentava, com Alfredo Costa e Aquilino Ribeiro (uma das pessoas a quem legou o testamento), o Café Gelo no Rossio.
Testamento - escrito a 28 de Janeiro de 1908, quatro dias antes do regicídio, não deixa de ser um documento interessante e digno de nota:
"Manuel dos Reis da Silva Buiça, viuvo, filho de Augusto da Silva Buiça e de Maria Barroso, residente em Vinhaes, concelho de Vinhaes, districto de Bragança. Sou natural de Bouçoais, concelho de Valpassos, districto de Vila Real (Traz-os-Montes), fui casado com D.Herminia Augusta da Silva Buíça, filha do major de cavalaria (reformado) e de D. Maria de Jesus Costa. O major chama-se João Augusto da Costa, viuvo. Ficaram-me de minha mulher dois filhos, a saber: Elvira, que nasceu a 19 de dezembro de 1900, na rua de Santa Marta, número… rez do chão e que não está ainda baptisada nem registada civilmente e Manuel que nasceu a 12 de setembro de 1907 nas Escadinhas da Mouraria, número quatro, quarto andar, esquerdo e foi registado na administração do primeiro bairro de Lisboa, no dia onze de outubro do anno acima referido. Foram testemunhas do acto Albano José Correia, casado, empregado no comércio e Aquilino Ribeiro, solteiro, publicista. Ambos os meus filhos vivem commigo e com a avó materna nas Escadinhas da Mouraria, 4, 4o andar, esquerdo. Minha família vive em Vinhaes para onde se deve participar a minha morte ou o meu desapparecimento, caso se dêem. Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, em breve, orphãos. Lisboa, 28 de janeiro de 1908. Manuel dos Reis da Silva Buiça. Reconhece a minha assignatura o tabelião Motta, rua do Crucifixo, Lisboa".
Gente de carácter, claro.
30
Jan23

Manuel Firmo, uma vida de combatente anarquista: da resistência ao fascismo em Portugal à guerra civil espanhola, dos campos de concentração franceses ao Tarrafal


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Manuel Firmo durante a Guerra Civil Espanhola

Na madrugada de 30 de Janeiro (de 2005) faleceu no seu domicílio, em Barcelona, o último (tanto quanto sabemos) militante libertário que combateu na Guerra Civil da vizinha Espanha, de 1936 a 1939, e o último também dos que padeceram no campo de concentração do Tarrafal.

Manuel Firmo, o mais velho de três irmãos – todos libertários – nasceu no Barreiro a 9 de Setembro de 1909, filho dum maquinista do Caminho de Ferro do Sul e Sueste. O pai foi transferido para Faro em 1914 e foi nesta cidade que Manuel frequentou a instrução primária.

 Regressado com a família ao Barreiro em Dezembro de 1918 começou a trabalhar numa fábrica de cortiça com doze anos incompletos. Despedido em consequência duma greve, foi sucessivamente servente de pedreiro, contínuo nos escritórios da CUF (donde foi despedido por se recusar a denunciar dois colegas) e novamente operário da indústria corticeira.

 Desejoso de melhorar os seus conhecimentos frequentou a biblioteca da Associação dos Corticeiros e, posteriormente, a do Sindicato dos Ferroviários. Fez exame de admissão às Oficinas Gerais do Caminho de Ferro do Sul e Sueste onde aprendeu o ofício de serralheiro. Aprendeu Esperanto e iniciou a sua militância anarco-sindicalista.

Em 1936, estando em risco iminente de ser preso pela polícia política em virtude da sua actividade militante, fugiu para Espanha. Detido por entrada ilegal, foi libertado ao cabo de algumas semanas por intervenção do antigo presidente da República Bernardino Machado, então exilado em Madrid.

 Para esta cidade se dirigiu e um mês depois deu-se o golpe militar fascista de 18 de Julho. Manuel Firmo incorporou-se nas milícias da CNT e foi enviado para a frente, em Somossierra. Dadas as más condições de alojamento, vestuário e alimentação combinadas com o frio rigoroso desse primeiro inverno adoeceu com pneumonia, numa época em que não existiam ainda antibióticos. A gravidade da situação determinou a sua evacuação, primeiro para Madrid e depois para Valência, onde convalesceu.

Com a incorporação das milícias no exército regular da República, Manuel Firmo, dadas as suas habilitações profissionais, foi integrado na aviação republicana como sargento mecânico.

O avanço nacionalista levou à evacuação da força aérea para Barcelona e, posteriormente, à retirada do exército governamental para a fronteira pirenáica, no que foi acompanhado por muitos milhares de civis.

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Manuel Firmo no Campo de Concentração de Gurs (França)

Ao entrar em França foi internado, como a maior parte dos refugiados, em campos de concentração sem as mínimas condições de alojamento, higiene ou alimentação. Passou pelos ignominiosos campos de Argelés-sur-Mer e de Gurs, sendo requisitado para trabalhar numa fábrica de material aeronáutico após a entrada da França em guerra com a Alemanha. À capitulação seguiu-se o reenvio para o campo concentração e ulterior incorporação em companhias de trabalho com características de companhias disciplinares.

Ao ter conhecimento de que se projectava o envio para a Alemanha duma força de trabalho composta de refugiados espanhóis, Manuel Firmo decidiu fugir de França e regressar a Portugal. Detido na fronteira, passou longos meses em prisões metropolitanas (Aljube, Caxias, Peniche) sendo finalmente enviado para o campo de concentração do Tarrafal, sem sombra de processo judicial.

 Finda a II Guerra Mundial foi libertado ao fim de 53 meses de encarceramento. Sendo-lhe muito difícil encontrar trabalho em Portugal, ao fim de dois anos emigrou para Angola onde esteve colocado inicialmente numa empresa de exploração de sisal e, mais tarde, na Companhia dos Caminhos de Ferro de Benguela. Aí se lhe juntaram os dois irmãos.

Regressou a Portugal e, decorridos dois anos, partiu para Barcelona onde reside a família da esposa, aí permanecendo até à sua morte.

Enquanto a saúde lho permitiu vinha a Portugal todos os anos, nas férias estivais. Nessa altura costumava frequentar o C.E.L., participando nas suas actividades e, nomeadamente, proferindo aí algumas palestras.

Manuel Firmo era um homem culto, autodidacta, que escrevia com elegância. Deixou-nos um livro autobiográfico, "Nas Trevas da Longa Noite, da Guerra de Espanha ao Campo do Tarrafal", editado por Publicações Europa-América.

A sua colaboração em A Batalha, encontra-se reunido «Caderno d' A Batalha» – Em torno da Guerra Civil Espanhola – publicado em 2003. Deixa ainda outra obra que não chegou a ser editada por haver adoecido e não poder acompanhar a sua revisão.

Mas o que sempre mais nos impressionou nele foi a extrema correcção e delicadeza, a atitude tolerante e bondosa, o bom senso, a simplicidade e a sua cultura.

Para a esposa Josefa, que o acompanhou nos momentos dificeis do exílio, também ela internada num campo de refugiados em França, que sofreu a separação dos longos anos de prisão e o acompanhou indefectivelmente em Portugal, Angola e Espanha, nomeadamente nos últimos anos de doença e invalidez, vai a manifestação do nosso pesar, bem como para o seu irmão, cunhada e sobrinhos, familiares da esposa e amigos mais íntimos.

O Colectivo Redactorial de A Batalha, nº 209 (Março, 2005)

Relacionado: http://utopia.pt/edicoes/Binder19.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Firmo

https://rastrosderostros.wordpress.com/2014/12/13/manuel-firmo-sindicalista-anarquista-y-esperantista/

https://estudossobrecomunismo2.wordpress.com/2005/02/05/morte-de-manuel-firmo-sindicalista-anarquista-e-esperantista/

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https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4293964

 

25
Jan23

(MEMÓRIA LIBERTÁRIA) COMÍCIOS ANARQUISTAS EM BEJA NO PÓS-25 DE ABRIL DE 1974


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O Alentejo sempre foi um terreno fértil para o anarquismo e para o anarco-sindicalismo enquanto instrumentos de luta para uma sociedade sem explorados nem exploradores. Na 1ª República o movimento libertário e anarco-sindicalista  teve uma forte presença em toda a região, sobretudo no seio dos trabalhadores agrícolas, dos artesãos (sapateiros, por exemplo), dos mineiros de São Domingos e de Aljustrel, dos corticeiros e dos pescadores da costa alentejana. Violentamente reprimido durante o fascismo, o movimento anarquista e anarco-sindicalista resistiu até onde pôde, vendo os seus melhores filhos, mortos, deportados ou presos.  Após o 25 de Abril de 1974 houve várias tentativas para recuperar essa tradição no Alentejo, tendo-se constituído grupos em Beja, Évora, Portalegre e noutras localidades. Em Beja, realizou-se no dia 25 de Janeiro de 1975 um comício que praticamente encheu o Ginásio do Liceu de Beja, em que estiveram presentes militantes e simpatizantes de todo o Alentejo. Este comício foi promovido pelos Grupos Anarquistas Autónomos. Alguns anos mais tarde, a 28 de Abril de 1979 realizou-se também em Beja uma outra sessão de esclarecimento promovida pelo jornal “A Batalha”, desta vez realizada na Sociedade Capricho Bejense. Ficam aqui, como registo, os cartazes e os panfletos distribuídos nessa altura na cidade de Beja.

aqui: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/08/08/memoria-libertaria-comicios-anarquistas-em-beja-no-pos-25-de-abril-de-1974/

21
Jan23

21 e 22 de janeiro de 1978: Festival "Pela Vida contra o Nuclear" nas Caldas da Rainha e em Ferrel


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O Festival "Pela Vida Contra o Nuclear" realizado a 21 e 22 de janeiro de 1978 nas Caldas da Rainha foi um momentos mais altos da luta ecologista e anti-nuclear em Portugal. O projecto da construção de uma central nuclear em Portugal foi definitivamente (?) abandonado em 1982 depois de vários anos de forte contestação popular, em que diversos grupos e militantes libertários estiveram envolvidos.

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Dois anos antes, a 15 de março de 1976 os sinos tocam a rebate na pequena povoação de Ferrel, no concelho de Peniche, chamando a população a protestar contra os trabalhos iniciais para a construção duma central nuclear junto á localidade.

O projecto já vinha de trás, dos tempos do marcelismo, e foi retomado após o 25 de Abril de 1974.

A 15 de Março em 1976, os 1500 habitantes de Ferrel (…) conseguiram impedir o avanço dos trabalhos. Esta manifestação marcou o início de um processo que culminaria com a desistência do projecto, tendo-se realizado até 1978 outras manifestações que contaram com o apoio de organizações ambientalistas internacionais.

(…) Por volta das 8 horas da manhã do dia 15 de Março de 1976, os sinos da capela de Nossa Senhora da Guia soaram a rebate. D. Crialmina, agricultora já falecida, tocou sem parar. Nem mesmo quando o badalo se desprendeu ela parou. Pegou nele e continuou a dar pancada no sino.

A população da aldeia e das povoações vizinhas acorreu, em força, juntando-se no largo da igreja, armada com todo o tipo de alfaias agrícolas. Enxadas, foices, sacholas, forquilhas, ancinhos, picaretas... Tudo servia para travar o 'monstro'. Foi dali que aquele aglomerado de pessoas – cerca de duas mil – marchou em direcção à serra, mais propriamente aos baldios de Moinhos Velhos, onde decorriam trabalhos de prospecção com vista à instalação de uma central nuclear. A missão era pôr fim a essas pesquisas.

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Mural em Ferrel

“Uns iam a pé, outros de motorizada ou montados em carroças de burro, tractores, camionetas ou até em cima de debulhadoras”, conta António Júlio Santos (antigo presidente de Junta), que morava no largo da igreja e que, assim que ouviu o sino, acorreu ao local. A viagem até ao alto de Moinhos Velhos, um trajecto com cerca de quatro quilómetros, demorou “mais de três horas”. “Aquilo era quase só areia. Altos e baixos. Não havia um caminho digno desse nome”, acrescenta, frisando que os trabalhos decorriam em “grande secretismo”. Nesse manhã, Tadeu Simões, já estava a trabalhar no campo quando ouviu o sino. “Larguei tudo e vim a correr”, recorda. Sem saber muito bem “ o que se estava a passar”, acompanhou a multidão, longe de pensar que iria participar num “acto heróico e corajoso do povo de Ferrel, a bem do País e da democracia”.

(…) O protesto popular foi imortalizado numa música. Em "Rosalinda" Fausto canta : "...e em Ferrel, lá para Peniche, vão fazer uma central que para alguns é nuclear, mas para muitos é mortal".

António José Correia, (depois presidente da Câmara de Peniche), era, na altura do protesto, colaborador do jornal local "O Arado". Recorda que a contestação à central nuclear juntou centenas de pessoas que "iam munidas dos seus instrumentos de trabalho, uns iam de trator, outros de bicicleta e outros de burro".

Apesar do aparato , da presença no local de centenas de pessoas e de muitos guardas da GNR, o protesto contra a central nuclear em Ferrel decorreu sem incidentes; "Não aconteceu nada, houve respeito mútuo. Foi uma manifestação pacífica".

António José Correia diz que a manifestação não teve o apoio de partidos políticos ou de associações ambientalistas. Foi genuinamente popular. Um "não" ao nuclear que se fez ouvir. A central de Ferrel nunca saiu do papel.” (aqui) 

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 Dois anos depois, quando se começava a falar, de novo, do projecto de uma central nuclear, realiza-se nas Caldas da Rainha a 21 e 22 de Janeiro de 1978 um Festival “Pela Vida contra o Nuclear” que juntou cerca de 3 mil pessoas, superando todas as expectativas dos organizadores.

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Neste protesto, que contou com um espetáculo musical com José Afonso, Fausto, Vitorino, Sérgio Godinho e Pedro Barroso, entre outros, estiveram presentes diversos anarquistas (a presença libertária nos movimentos ecologistas era grande na altura), desde A Ideia, à Voz Anarquista ou ao Satanás (um grupo de Almada, que editava um pequeno jornal) a colectivos dispersos pelo país.

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Numa edição especial de “A Ideia”, no n. 9 referente ao Inverno de 1977/1978, toda ela dedicada à relação entre Ecologia & Anarquia, destaca-se a luta anti-nuclear internacional e pode ler-se:

“Apesar dos Livros Brancos, eternamente anunciados, não é apenas Ferrel que está em causa. É talvez o Alentejo. É talvez a Bacia do Zêzere, onde a existência de amplas zonas militarizadas (Tancos, etc.) e uma população sem grande experiência de contestações e lutas, permitirá pensar aos políticos e tecnocratas que não irão ter grandes oposições sociais à concretização dos seus projectos…. Pela nossa parte esperamos, nem entendido, que se enganem redondamente”.

Curiosa é a noticia do jornal “Voz Anarquista” sobre este Festival. O jornal esteve presente e numa crónica de primeira página não assinada (Francisco Quintal?) o seu autor mostra-se solidário e galvanizado peloa forma como o protesto decorreu e pelo número de pessoas que acorreu às Caldas, mas não esconde as críticas à “desorganização” existente, nem à falta de espaços onde todos coubessem.

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"Caldas da Rainha

Um festival pela vida contra o nuclear decorreu e deve continuar

A pequena cidade de Caldas da Rainha, dentro da sua especial característica que faz dela, desde sempre e ainda hoje, uma jóia da Arte aliada às belezas naturais em que os habitantes conscientemente se integram, viu-se positivamente assaltada por uma multidão de pessoas cujo número ultrapassou e muito o habitual dos seus habitantes. Como todas as terras que vivem de um passado que, até certo ponto, as adormece à sombra de recordações, acordou estremunhada na manhã de sábado, 21 de Janeiro, por ecologistas de todas as tendências que vinham ali e em toda a região até Ferrel, já na orla do oceano, lançar forte e eloquentemente o seu protesto contra o Nuclear que uma ciência, a soldo do capitalismo, explorada por governantes sem escrúpulos e por homens ávidos de negócios,  pretende justificar frente à natureza que se vê, de dia para dia,  desfalcada das suas belezas, da suas virtudes e da sua seiva. Mas, os visitantes, conforme iam chegando viam- se aprisionados naquelas ruas estreitas, e em pouco tempo o programa, com tanto carinho elaborado, viu-se alterado, com o seu primeiro número, dedicado às crianças, posto de parte, por dificuldade de acomodação em que as crianças pudessem reunir-se e trabalhar, dando provas do seu talento natural, no que elas, por vezes, ultrapassam os adultos. E assim se passou naquela linha manhã, constatando-se que as Caldas não tem locais para abrigar mais que algumas centenas de pessoas. A Comissão do Festival não calculou que os números de visitantes fosse tão grande, pois de contrário teria de erguer, embora provisório, que depois seria definitivo, um parque, meio ar livre, coberto por um alpendre ornamentado onde coubessem, não centenas, mas os milhares de pessoas que ali acorreram. O que nos encheu de satisfação, e considerámos muito belo, foi o crescer daquela multidão que ia chegando para a realização do eloquente protesto de um povo que quer ser livre e são. Como dissemos, os trabalhos afinal só começaram depois das 14 horas.

Mas tudo, com ar de feito à pressa, programas negligenciados, tudo última hora, apressado em ar de família pouco meios, com poucas cadeiras e bancos, e instalação de um serviço de alimentação macrobiótica, no ar, em exígua instalação. Bem, membros da Comissão apareciam, a cada passo surgiam, cheios de gentilezas, dando facilidades, o que não seria preciso, se tudo já estivesse previsto e realizado. Consolámo-nos com o ambiente social em que todos se mostraram de um optimismo, duma confraternização encantadora. Nessa tarde começaram a instalar-se bancas de venda e distribuição de livros, folhetos e cromos e autocolantes, não só de ecologia mas de várias tendências políticas. Todos compreendendo a inter-ajuda, todos muito cheios do espírito de tolerância. «Voz Anarquista» montou a sua banca e ali fez o seu sucesso, nesse dia e no domingo. Viemos de lá com a consolação de que contactámos com gente que ficou surpresa de nos ver, que nos acarinhou, e com a clara visão de que a Anarquia está na alma do povo e que é indispensável gritar, sem rebuços esta palavra mágica, que os órgãos diversos do Poder – meios de difusão e meios de repressão – insistem em lançar na sombra. «A Ideia» - órgão de um grupo incansável de propaganda, ali montou banca, a nosso lado. Outras tendências políticas e sociais. E, vá lá, devemos dar primazia aos grupos ecologistas, aos macrobióticos, cujas bancas se viram quase assaltadas por compradores, ávidos de novidades. Reuniões destas, como constatámos, fazem falta. Para substituir as estúpidas embora tradicionais feiras regionais, exclusivamente votadas a um negócio sórdido, devia havê-las mês por mês. Festivais como este, deslocando o seu centro de concorrência e sempre com o mesmo objectivo: a defesa da Natureza, posta em risco pelo sistema capitalista que não olha a meios para atingir os seus fins. A presença destes milhares de pessoas nas Caldas foi um mar de confraternização cheio de grandes possibilidades. O povo não é aquela mola que os políticos pretendem moldar aso seus interesses; o povo vem até nós se nós formos ao seu encontro. O que é preciso é que as Comissões, previamente, realizem mais trabalho, não deixando para a última hora o trabalho entregue aos concorrentes. Também notámos em muitos dos concorrentes uma certa tendência para admitir uma primitiva acomodação ao meio.  O que é preciso é um evolucionar dos meios, admitindo uma forma presente e não uma forma passada. Queremos a natureza elevada em todo o seu prestígio, dentro de um progresso contínuo e não de um regresso.  Portanto, salientaremos que o que deu explêndida vida ao certame foi a própria multidão que acorreu.

No domingo, de manhã, Caldas ficou deserta, entregue ao seu mercado e às suas lojas de curiosidades artísticas, velha-menina remirando-se na sua própria beleza. Os ecologistas de todas as tendências foram a Ferrel lançar um eloquente protesto. É que ali, já no tempo de Salazar, foram construídos os alicerces de uma estação nuclear. E como a revolução de Abril, dos militares e de um povo enganado, mudou apenas de rótulos, mas continuou e respeitou as realizações fascistas, Ferrel tem sido objetivo da tentativa da prevista estação nuclear, o que prova que, quer no regime fascista, quer nos sucedâneos rotulados de democráticos  e «socialistas» ou «comunistas», o regime capitalista sobrevive sempre. Em Ferrel, só a presença da multidão bastou para alastrar o eco de um protesto que não deve morrer. À tarde, voltámos às Caldas. As bancas. Ternura, fraternidade entre todos.  A desorganização dos promotores continua à vista. Não há uma sala para conferências onde a multidão caiba. Caldas ainda trás em cima de si os vestidos justos dos séculos que já lá vão. Tem magníficos edifícios que ameaçam ruína e desmoronamentos. Falta-lhe um parque para dez ou vinte mil pessoas. O seu jardim-parque é uma maravilha. O Museu Malhoa é um modelo em qualquer parte do mundo. Visitando-o, uma comoção muito profunda, quase lacrimosa, invadiu-nos. Mas Caldas, ainda dorme. Deve acordar. Restaurar forças. Tornar-se cidade para toda a gente que vem de fora. Deixar de encolher-se em si própria. Nessa noite vieram falar uns oradores expressamente convidados. Falaram muito. Poucos os ouviram. A grande massa ficou de fora. O certame, que nos comoveu, acabou cedo, com música e canto. Zeca Afonso, com o seu gabão, modesto, simples, ali esteve. Vitorino, sempre libertário, também. Outros grupos igualmente. Apesar dos defeitos, o protesto valeu. É necessário que continue, noutras terras, enquanto Caldas se abre mais. Para uma vida que merece a pena viver. Por uma estrada nova que leva ao país da Anarquia.

(Voz Anarquista, nº 28 – Janeiro/Fevereiro, 1978)

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Fotos: aqui, aqui e aqui

relacionado: https://www.campoaberto.pt/wp-content/uploads/2018/09/PELA-VIDA-1978.pdf

https://www.jornalmapa.pt/2018/01/18/viver-e-preciso/

20
Jan23

Abílio Gonçalves: o último sobrevivente anarco-sindicalista do Campo de concentração do Tarrafal, em Portugal, morreu a 20 de janeiro de 2004


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(foto publicada na revista Utopia, 17)

Com a morte de Abílio Gonçalves (1911-2004), antigo amassador de pão, resistente anarquista ao fascismo,  desaparecia, em Portugal, o último sobrevivente anarco-sindicalista do Campo de concentração do Tarrafal.  Vivo permanecia ainda Manuel Firmo, também antigo preso anarco-sindicalista do Tarrafal, mas a viver há longos anos em Barcelona. Morreu um ano mais tarde, em Janeiro de 2005, com 95 anos.

Abilio Gonçalves foi preso no próprio dia 18 de janeiro de 1934, em Lisboa, sendo desterrado para o Campo do Tarrafal logo na primeira leva de presos, tendo estado ali detido durante 10 anos (1936-1946),  sujeito aos piores maus tratos.

Nos anos a seguir ao 25 de Abril de 1974, Abílio Gonçalves explorou um pequeno restaurante em Pinheiro de Loures, juntando à sua volta um grupo de jovens muito activo, de raíz operária e estudantil.

Colaborou também no reaparecimento de A Batalha e a sua presença na sede da Angelina Vidal era frequente. O jornal A Batalha, nº 203, traçava deste modo o retrato do companheiro desaparecido:

"Na madrugada de terça feira, 20 de Janeiro próximo passado (2004), faleceu na sua residência em Pinheiro de Loures, aos 92 anos, o companheiro Abílio Gonçalves. Nos últimos meses a sua precária saúde obrigara a sucessivos internamentos hospitalares. Abílio Gonçalves nasceu no lugar de Vinhó, próximo de Coja, concelho de Arganil, em 16 de Outubro de 1911. Era filho de José Gonçalves e Guilhermina de Jesus. Dificuldades económicas familiares apenas lhe permitiram frequentar por pouco tempo a instrução primária, lançando-o precocemente no mundo do trabalho. Após alguns anos nas fainas agro-pastoris veio para Lisboa onde foi marçano, aprendendo em seguida o ofício de padeiro (amassador). Casou e teve uma filha.

Filiado na Associação de Classe dos Manipuladores de Pão frequentou na respectiva escola sindical o ensino elementar. Foi eleito secretário da Mesa da Assembleia Geral e, mais tarde, membro da Comissão Administrativa do sindicato. Foi nesta qualidade que participou activamente na organização da greve geral de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos. Estava então empregado numa padaria da Rua D. Pedro V.

Denunciado por um colega de trabalho que era informador da polícia política, foi preso naquele mesmo dia 18 após o fracasso do movimento. Seguiram-se os interrogatórios e espancamentos policiais, a transferência para o Presídio Militar da Trafaria e o julgamento em Tribunal Militar com condenação a 10 anos de prisão e degredo. A 8 de Setembro de 1934 é enviado a bordo do «Lima» para o forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, aonde aportou ao cabo de 5 dias de viagem. Em Angra foi, como os outros, sujeito a frequentes espancamentos e a encerramento de castigo na poterna. Permaneceu nesta fortaleza até 23 de Outubro de 1936, data em que foram embarcados no vapor «Luanda» com destino ao campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde). Aí sofreu todas as agruras do campo, nomeadamente a inclusão na «brigada brava» e demoradas estadias na célebre "frigideira". Assistiu impotente à doença e morte, sem assistência médica, de vários companheiros, entre os quais Pedro Matos Filipe, Arnaldo Simões Januário, Mário Castelhano, Abílio Augusto Belchior, Joaquim Montes, Manuel Augusto da Costa, etc.

Abrangido pelo decreto de amnistia de Outubro de 1945, regressou à metrópole em 1 de Fevereiro de 1946, a bordo do paquete «Guiné», sendo posto em liberdade. Atravessou dificuldades consideráveis para arranjar trabalho, nasceu nessa época o seu segundo filho e algum tempo depois foi para Moçambique, onde se lhe juntariam os filhos. Alguns anos depois foi para a Suazilãndia. Regressou a Portugal algum tempo depois do 25 de Abril, tendo montado um pequeno restaurante em Pinheiro de Loures. Suspendeu a sua actividade há cerca de dez anos.Sócio do Centro de Estudos Libertários, foi presidente do seu Conselho Fiscal (1987) e membro da sua Comissão Administrativa (1988 e 1989). Foi igualmente assinante e colaborador do jornal A Batalha. Com a sua morte desaparece, em Portugal, o último sobrevivente anarco-sindicalista do Campo de concentração do Tarrafal. No funeral estiveram presentes familiares, amigos, dois sobreviventes do Tarrafal, o CEL / A Batalha e outros companheiros libertários."

A morte de Abilio Gonçaves foi também registada nas páginas da revista Utopia. por José Maria Carvalho Ferreira.

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aqui

 

16
Jan23

Carta do MLM publicada no jornal francês Liberation a seguir aos incidentes da manifestação de 13 de janeiro de 1975 em Lisboa


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Carta do M.L.M.

 

ACONTECIMENTOS DEGRADANTES...

O Movimento de Libertação das Mulheres portuguesas decidiu inaugurar o Ano Internacional da Mulher, declarado pelas Nações Unidas, queimando os símbolos da opressão feminina, tais como o Código civil e penal, exemplares pornográficos que utilizam o corpo da mulher como objecto, esfregões e vassouras, etc., todos os tipos de Iiteratura «machista», fraldas (simbolizando o mito da maternidade — enquanto a lei dá apenas ao pai todos os direitos sobre os filhos…).

Os filhos de algumas feministas tinham voluntàriamente decidido participar na manifestação, queimando brinquedos que determinam, desde a infância, o papel reservado a cada sexo na sociedade: metralhadoras e tanques para o rapazes, bonecas para as raparigas.

Seis horas da tarde: quinze feministas chegam ao Parque Eduardo VIl, vestidas de «vamp», com vestido de noiva, disfarçadas de mulheres grávidas, de donas de casa, etc. A imprensa anunciou alguns dias antes esta manifestação como um «strip-tease». Para sua grande surpresa, milhares de pessoas (duas mil a cinco mil pessoas) — sobretudo homens — aguardam-nas. Durante três minutos, não se passa nada. Abre-se um círculo para as deixar passar. No momento em que acendem uma fogueira, o círculo fecha-se à sua volta, e começa a grande confusão: torna-se impossível queimar seja o que for. Chovem dezenas de insultos: «Vamos montá-las», «As mulheres só são boas para a cama», «As mulheres para casa», etc. (e mais todos os tipos de insultos intraduzíveis) acompanhados de gestos obscenos. Uma militante negra é coberta de injúrios: «Vamos fodê-la. As pretas são as melhores na cama.» Um pequeno grupo de mulheres que ostenta uma faixa com as palavras:  «Isto é ridículo», e que, no início, gritavam: «Elas é que deveriam ser queimadas», ao verem a brutalidade de que as feministas são alvo mudam ràpidamente de opinião e começam a gritar: «Vocês, os homens, é que são ridículos.» Um grupo de homens com as bandeiras e os emblemas do PCP (Partido Comunista Português) cantam o hino do Partido. As crianças presentes quase sufocam. As feministas tentam pô-las a salvo recuando para um carro estacionado ali perto, pertencente a uma delas. Mas os homens perseguem-nas, tentando virar o carro.

É então que uma das raparigas começa a gritar: «Querem matar-nos com os nossos filhos?» E é só então que eles param. Acabamos por nos refugiar num prédio, a uma centena de metros dali. E o carro é então imediatamente danificado por uma multidão de homens enraivecidos.

Mulheres simpatizantes, mas não militantes do movimento, que trazem cartazes ou que decidiram manifestar com as militantes, são agredidas — é o caso de uma senhora idosa de 60 anos que trazia uma vassoura. As forças da ordem chamadas à pressa recusam vir porque «há muita gente». As forças do COPCON (Comando Operacional do Continente) chegam ao fim da manifestação que não durou muito tempo — houve no entanto homens que ficaram durante longos momentos gritando diante da porta do prédio onde as mulheres se refugiaram, após terem despido completamente uma jovem de 17 anos que passava por acaso e que foi salva no último momento por um jornalista indignado.

Pode-se imaginar o choque e o mau-estar que persistem após todos estes acontecimentos degradantes, espelho de uma sociedade reprimida durante dezenas de anos por uma política baseada na ignorância e na repressão, na supremacia do homem, viril, herói, «garante destemido e irrepreensível» da religião, da pátria e da família, com uma mãe virtuosa, uma mulher sem mácula, uma irmã a defender das calúnias, e a puta com que se vai para a cama e de quem se diz (e a quem se faz) todo o mal possível.

Movimento de Libertação das Mulheres

(Jornal parisiense Libération, 4 de Fevereiro de 1975)

aqui:  MANIF MLM 1975.pdf

(agradecimentos a Ângelo Barreto e Helena Santos)

16
Jan23

Ainda sobre a manifestação do MLM, em Lisboa, a 13/1/1975: reportagem da RTP


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ver aqui

Lisboa, manifestação organizada pelo Movimento da Libertação das Mulheres é interrompida e boicotada por grupos de homens no Parque Eduardo VII. Homens dirigem-se e observam a manifestação no Parque Eduardo VII a 13 de janeiro de 1975; mulheres seguram cartazes rasgados; imagens noturnas de manifestantes; recortes de revista no chão.

16
Jan23

PAULO JOSÉ DIAS (1904 - 1943), assassinado pelo fascismo no Tarrafal


 

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Sobre Paulo José Dias, morto no Tarrafal a 13 de Janeiro de 1943, de tuberculose, não há muitos dados. A sua morte é, no entanto, sentidamente relatada no livro do anarquista Manuel Francisco Rodrigues ("Tarrafal, aldeia da morte") que refere ter sido ele acompanhado até ao último suspiro pelo anarquista Joaquim Duarte Ferreira, um elemento destacado da Organização Libertária Prisional. 
 
*
 

Natural de Lisboa, nasceu a 24 de Janeiro de 1904, filho de José Paulo Dias e de Maria Picôto Dias. Fogueiro marítimo, libertário, foi preso em 7 de julho de 1939, "para averiguações" - segundo informação do Registo Geral de Presos da PVDE. Quinze dias depois, foi transferido para o Reduto Norte da Cadeia de Caxias.
Em despacho do Director da PVDE (capitão Agostinho Lourenço), de 29 de Fevereiro de 1940, foi determinado que se mantivesse em prisão preventiva, devendo ser transferido para Cabo Verde até se esclarecer a situação internacional [ este curioso despacho precede o envio de Paulo Dias para a 1.ª Esquadra, em 4 de Junho de 1940 e, de novo, para o Reduto Norte de Caxias em 7 de Junho de 1940.
Em 21 de junho de 1940, embarcou com destino ao Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde faleceu, com 39 anos de idade, a 13 de janeiro de 1943. (1)

(1) «Manuel Francisco Rodrigues, um dos tarrafalistas que sobreviveu à " aldeia da morte", assistiu à morte de Paulo Dias, que
morreu de tuberculose galopante, após 4 meses de cama. Escreveu no seu livro: " Dizia-me ele, três dias antes de morrer: -- A hora da justiça vai chegar e eu, que estou aqui injustamente, sem culpas , sem processo e sem julgamento, voltarei em breve abraçar os meus fllhos, sim, os meus filhos, pobrezinhos!...» À cabeceira da cama tinha uma moldura com as fotografias dos filhos e da esposa. Eram tão bonitos, os filhos!... Mas já não os verá mais. Já morreu!...»
In "Tarrafal, Aldeia da Morte" de Manuel Francisco Rodrigues, pág. 107.

https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/photos/a.559109110865139/3369027133206642/

15
Jan23

Intervenção do Grupo Acção Directa no Comício da Voz do Operário (15/1/1977)


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A propósito dos 46 anos do Comício Anarquista na Voz do Operário, convocado pela FARP/FAI, disponibilizamos aqui a intervenção do Grupo Acção Directa nessa sessão pública, traçando um quadro daquele que era o panorama político e social do país naquela altura. A intervenção foi posteriormente publicada como suplemento ao nº 8 da revista.

 

15
Jan23

O Comício Anarquista de 15 de janeiro de 1977 na Voz do Operário, em Lisboa, convocado pela FARP


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Fotos do comicio na Voz do Operário publicadas no semanário Expresso e reproduzidas no jornal "Voz Anarquista"

No dia 15 de janeiro de 1977 a FARP-FAI realizava o seu primeiro comício na Voz do Operário, em Lisboa. O salão esteve repleto e o comício foi noticiado por vários jornais, do Expresso ao Diário de Lisboa e, também, pela imprensa anarquista. O comício foi convocado pela FARP através das revistas A Ideia e Acção Directa, que tinham circulação legal. Segundo a convocatória, o comício iria abordar os seguintes temas: Anarco-sindicalismo; Nós e o militarismo; Desobediência Civil; os Estados Ibéricos e a Evolução Social.

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"A assistência ao comício realizado no grande salão da «VOZ DO OPERÁRIO», no passado dia 15 de Janeiro, enchendo a casa até aos mais afastados recantos da sala, veio demonstrar o quanto é viva a curiosidade de muita gente pelo que fazem e pelo que poderão fazer - numa propaganda nova, distinta das outras já estafadas das políticas de desilusões - os anarquistas deste rincão peninsular que se chama Portugal" escrevia, em primeira página, a "Voz Anarquista", no nº 19, saído no final do mês de janeiro.

E acrescentava: "Os velhos camaradas compareceram, mesmo os de longe, como de Setúbal e Évora, e alguns novos do Porto, Coimbra e Leiria, mas não é destes que cuidamos, pois a sua presença é sempre aguardada. O que mais nos maravilhou, nesta casa à cunha, foi a presença de um publico ansisoso, que veio dar testemunho de que o Anarquismo - silenciado por uma imprensa amordaçada, embora finja que o não é, ignorado por uma Constituição que a sua própria polícia desrespeita, comtemendo nos presos vexames e maus tratos, - vive e é, como sempre foi, em todo o mundo, um corpo de doutrina e um movimento de acção que os zoilos desprezam, portador de um ideal que fariseus de variada gama reconhecem como o mais belo, num futuro que não os apoquente, mas que no presente de suas vidas, ignoram, expulsam e esmagam, com a valentia das suas armas e o acabrunhante medo das suas mentalidades híbridas".

Relatando o que se passou no comício o articulista da "Voz Anarquista" escreve que "a sessão foi iniciada com a leitura de correspondência, individual e colectiva, saudando todos os assistentes, entre a qual salientamos os Comités da AIT, FAI e CNT de Espanha.

Seguiram-se os discursos para os quais estavam devidamente indicados os camaradas que constituiam a mesa e que expuseram os nossos principios com exactidão e a energia necessária, mas, devemos notar, não com a veemência expendida nos manifestos antes publicados, e que, por isso, e por os acharmos notáveis, publicamos nas nossas páginas interiores. O contrário, porém, é que deveria ter sido, devendo os discursos, que com prazer ouvimos, ser menos académicos e mais subversivos, se nos lembrarmos que um com+icio não é, de forma alguma, uma sessão de propaganda especialmente doutrinária, mas uma cto de agitação que vem alertar a opinião pública para problemas actuais, candentes, reclamar direitos esquecidos, desta vez o direito que nos assiste de desenvolverms a nossa propaganda sem sermos atropelados pela polícia, seja de choque, normal ou orivativa de partidos mais ou menos municiados, como já tem acontecido, e ainda há poucos dias, no Porto, sucedeu."

Acrescenta a "Voz Anarquista": "Aquele esfusiante grupo de jovens que esteve sempre presente, com ar agitado, e que nos pareceu animado de boa mentalidade libertária e se manifestou no fim, subindo ao palco, quando já o regulamento da casa exigia o fecho, foi como se uma janela se abrisse de repente e uma lufada de ar fresco inundasse todo o recinto já demais aquecido"

E a finalizar: "O Comício Anarquista, agora realizado, não deixou de ser uma excelente manifestação comprovativa das nossas ideias, ao qual se devem suceder outras manifetsações, como a sessão de esclarecimento sobre o célebre 18 de Janeiro de 1934, realizada em Leiria, no passado dia 22, e onde esteve presente o nosso velho companheiro Custódio da Costa, de Lisboa, e nos quais, a par de sessões de propaganda e plenários, em que a matéria de estudo e mia sinteiramente estudada, o nosso contacto com o público seja mais efectivo, masi aberto, no sentido de deixar vincado que o Anarquismo é necessário como força de descongestionamento numa sociedade convulsionada por limites atentórios da dignidade humana e do progresso social".

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aqui

O comício anarquista no Diário de Lisboa

Diferente foi a visão da imprensa burguesa. O Diário de Lisboa, cuja direcção era dominada pelo PCP e por elementos marxistas-leninistas, não perdia uma hipótese de denegrir o anarquismo nas suas páginas, por entre os mais diversos elogios a tudo o que cheirasse a comunismo autoritário. Na edição de dia 17 de janeiro, segunda-feira (o DL não se publicava ao domingo) em noticia não assinada, no entanto, o Diário de Lisboa, confirmava a numerosa assistência ao comício: "Sala cheia de gente na sua maioria nova. Na assistência que ouvia sentada nas cadeiras (muito convencional) os discursos dos oradores (no outro lado) da mesa havia várias motivações. Uns foram porque simpatizam com a ideia de liberdade integral defendidad pelos anarquistas; outros proque Bakunine está vivo; muitos por curiosidade."

E depois: "Este comício, porém, não saiu - mesmo nada - ao jeito normal dos comícios. Vendia-se propaganda à entrada. Havia distanciação entre a plateia e os «actores» Leram-se discursos. Havia bandeiras - entre as quais a da Federação Anarquista Ibérica. Não havia alegria, nem calor. Serenamente o público aplaudia como se fosse essa a função que lhe tivessem destinado na distribuição de lugares".

Resumindo: "No comício promovido pela Federação Anarquista da Região Portuguesa (FARP) criticaram-se os sindicatos, os partidos, as hierarquias e o exército", escreve o Diário de Lisboa.

14
Jan23

Morreu Carlos Pimpão


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Morreu esta quarta-feira, dia 11 de janeiro, Carlos Pimpão, anarquista, tendo-se o funeral realizado no dia seguinte em Amiais de Baixo (Santarém), localidade onde nascera há 73 anos.
Figura muito conhecida nos meios libertários, Carlos Pimpão era engenheiro agrónomo. Trabalhou no ministério da Agricultura, tendo, recém-licenciado, sido colocado em Évora no Centro Regional de Reforma Agrária. Fez parte do grupo que editou nesses anos o jornal Apoio Mútuo, em Évora, com Júlio Carrapato, então professor na Universidade de Évora.
Coube a Carlos Pimpão fazer o elogio fúnebre a Júlio Carrapato aquando do funeral do anarquista algarvio.
A foto que publicamos de Carlos Pimpão é de 19 de julho de 2017 quando um grupo de companheiros realizou em Faro um encontro de homenagem a Júlio Carrapato, um ano depois da sua morte.
13
Jan23

Uma “ manifestação de impotentes” tentou boicotar a primeira manifestação feminista em Portugal  a 13 de janeiro de 1975


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aqui

Há 48 anos, no dia 13 de janeiro de 1975, uma manifestação convocada pelo MLM (Movimento de Libertação das Mulheres) , criado alguns meses antes, foi atacada por centenas de populares (a maioria voyeurs) que agrediram as feministas - com quem vários sectores do movimento libertário tinham contactos próximos, participando mesmo na abertura e limpeza da casa que ocuparam no alto da Avenida Alvares Cabral, em Lisboa, e onde esteve instalado durante algum tempo o equipamento para a produção de material impresso da Associação de Grupos Autónomos Anarquistas -, tornando, não apenas simbolicamente, o Parque Eduardo VII em Lisboa, num verdadeiro campo de batalha.

A manifestação tinha sido convocada para contestar os valores de uma sociedade que oprimia as mulheres e, para tal “ficou decido que uma das mulheres iria vestida de noiva, uma outra de dona de casa e uma terceira iria mascarada de vamp (um símbolo sexualà época). No fim, o objetivo era queimar o véu e o bouquet de flor de laranjeira, a esfregona e o pano do pó e deitar por terra a ideia da mulher como objeto sexual”. (aqui)

O jornal Expresso, no sábado anterior, tinha, no entanto, noticiado que as mulheres, em protesto, iriam queimar "todos os símbolos de opressão" e fazer "strip-tease", num acto simbólico de libertação, o que nunca esteve previsto, nem aconteceu, mas que levou centenas de homens a concentrarem-se no local.

Numa notícia posterior à manifestação, intitulada “A manifestação dos impotentes”, o jornalista Júlio Henriques, actual director da revista Flauta de Luz, também publicada no semanário Expresso, a 18 de Janeiro, escreve que “paradoxalmente, a esta manifestação responderam, não as mulheres (em número mínimo) mas os homens. E a manifestação original (a convocada) transformou-se numa outra: a dos impotentes. A dos que têm como valores sagrados a sagrada trilogia “trabalho, família e pátria” (a que em versão lusitaníssima, se deve acrescentar: deus).(...) E é de espontaneidade que se pode falar acerca do movimento que fez acorrer à manifestação do MLM uma multidão de mirones impotentes, atraídos, como as moscas pela merda, pelo que julgavam ser um strip-tease público (...)”.

A jornalistas Lourdes Feria, no Diário de Lisboa, de 14 de janeiro, dá também conta do que se passou na manifestação do MLM: ““Os cartazes que as mulheres do M.L.M traziam foram-lhes brutalmente arrancados. E não contentes com a façanha, os homens rasgavam e espezinhavam os bocados de papel onde se reivindica ‘Democracia sim, falocracia não’. Verificou-se naquele triste espectáculo dos homens um ‘complot’ muito evidente. Os que não agiam consentiam. Esperavam assistir a um strip-tease (e de borla), aliás uma ideia espalhada pelo ‘Expresso’, não sei com que intuito, e ficaram possessos de ira quando se aperceberam que não tinham oportunidade de extravasar as suas frustrações sexuais.”

E, mais à frente, acrescenta Lourdes Féria ao relato, “Um rapaz, simpatizante de um movimento politico que se afirma o mais revolucionário (e infalível) de todos dizia, com um ar de cátedra condimentado com uma pitadinhas de moralismo: “Isto é rídiculo, vocês não conseguem nada”; “a vossa luta deve estar enquadrada na luta geral da vanguarda do proletariado contra os capitalistas”.”

Na altura, apesar de Maria Teresa Horta, uma das impulsionadoras do MLM com Isabel Barreno, ser militante do PCP, o MDM demarcou-se da manifestação, em comunicado, onde refere que  “o Movimento Democrático das Mulheres Portuguesas (M.D.M.) condenando os lamentáveis incidentes referidos no documento acima citado, dissocia-se, considerando que não se podem subestimar os objectivos e métodos utilizados pelo Movimento de Libertação das Mulheres, os quais não são estranhos aos referidos acontecimentos.”

Sobre esta manifestação e a história do MLM, numa perspectiva académica, ler a interessante tese de mestrado de Cristiana Pena, datada de fevereiro de 2008: “A REVOLUÇÃO DAS FEMINISTAS PORTUGUESAS 1972 — 1975 -  DO “PROCESSO DAS TRÊS MARIAS” À FORMAÇÃO DO MLM — MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO DAS MULHERES

relacionado: 

carta do MLM ao Liberation: https://memorialibertaria.blogs.sapo.pt/carta-do-mlm-publicada-no-jornal-38724

reportagem da RTP:  https://arquivos.rtp.pt/conteudos/manifestacao-do-movimento-de-libertacao-das-mulheres/

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09
Jan23

(memória libertária) As faixas da Casa Viva, no Porto, e a repressão policial


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No dia 20 de dezembro de 2008, dia internacional de solidariedade com os jovens gregos em revolta, depois do assassinato pela polícia grega do jovem anarquista de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos (Alexis), o Centro Social Casa Viva (março de 2006 a maio de 2015), um espaço autogestionado na Praça Marquês de Pombal, no Porto, decidiu colocar uma faixa no prédio que ocupava denunciando a actuação da policia grega.  Na altura foi distribuído um comunicado à população (O espectro da liberdade surge sempre com uma faca nos dentes) a explicar o sentido da faixa. Duas semanas depois, a 5 de Janeiro, os Bombeiros Sapadores do Porto, chamados pela PSP, retiraram a faixa, e foi levantado um auto de apreensão.

Dias depois a Casa Viva reagia com um comunicado em que denunciava a actuação da polícia e das autoridades e em que se alertava para a, cada vez maior, violência exercida contra qualquer dissidência: "Os processos de intimidação à divergência apertam-se. Espera-se que o medo de qualquer coisa, independentemente do que seja, impeça as pessoas de se manifestarem, de exporem opiniões, de se levantarem perante as injustiças dos poderosos. Depois de visitas policiais à Casa em dias de reuniões, depois de visitas regulares ao blog, veio o roubo/apreensão da faixa, um processo-crime sobre “os responsáveis pela faixa”, o reconhecimento policial de que já estamos todos fichados e as ameaças de que, ou atinamos, ou nos fecham a Casa e nos mandam de saco, por causa da questão da propriedade, aliás, por causa das drogas, aliás por qualquer coisa que lhes apeteça." (aqui)

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Mas a tensão entre as autoridades locais e os activistas da Casa Viva devido às faixas não  ficou por aqui. Cinco anos depois, para assinalar o 1º de maio de 2014 decidiram colocar uma faixa, na frontaria do edificio, criticando a escravidão do trabalho assalariado. A frase escolhida foi: "SER ESCRAVA PARA SOBREVIVER, IDE-VOS FODER!".

No dia 2 de Maio, sem que qualquer uma das ocupantes da casa estivesse presente, numa acção conjunta,  a PSP,  Polícia Municipal e Sapadores do Porto retiraram a faixa, sem qualquer explicação. A Casa Viva reagiu com um comunicado em que reivindicava o direito a cada um usar a fachada das suas casas como muito bem entendesse, " já muito bem pago pelos impostos (IMI) no direito de habitar!" (aqui)

Video relacionado: https://youtu.be/XclwwxL5Ql0

 

07
Jan23

Jaime Rebelo: "morte de um velho e prestigioso militante", noticiava a "Voz Anarquista" em Janeiro de 1975


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A 7 de Janeiro de 1975, poucos meses depois do 25 de Abril de 1974, morria Jaime Rebelo, velho lutador anarquista, evocado no poema do Homem da Boca Cerrada, de Jaime Cortesão.

Nesse mesmo mês saía o primeiro número do jornal Voz Anarquista, com Francisco Quintal como director e sede em Almada, que noticiou deste modo a morte do velho militante, combatente pelos ideais anarquistas quer em Portugal, no seio da CGT anarcosindicalista, quer em Espanha, ao lado da CNT no decurso da Guerra Civil e da Revolução Espanholas:

"O nosso regozijo pela saída de «Voz Anarquista», mais um jornal acrata que, neste mundo capitalista e autoritário, vem propagar a Ideia generosa e bela, e lutra pela sua vitória, entre as massas guiadas por tantos maus pastores, acaba de ser ensombrado pela morte do nosso amigo e camarada Jaime Rebelo. Lutador pelo Ideal libertário e militante da antiga e gloriosa Confederação Geral do Trabalho, desde muito novo, a vida deste nosso já saudoso companheiro caracterizou-se sempre por um grande espírito de actividade e combatividade, dentrso de uma atmosfera de bom senso, de rectidão, sempre atento à honestidade de processos na luta, à coerência com as afirmações feitas. Natural de Setúbal fez parte de uma familia de pescadores, mestres de traineiras, que se não limitarem à vida profissional apenas animados pelo espírito de lucro. Os Rebelos fioram animadores portentosos da causa de deefsa do proletariado setubalense, juntamente com uma pleiade de trabalhadores, de terra e do mar, que deram à cidade de Setúbal a fama tradicional de cidade revolucionária, até ser conhecida pela Barcelona portuguesa. Através desta propícia atmosfera de são revolucionarismo e em variados actos de vida sindical e de um jornalismo local que se caracterizou pelo seu espírito libertário, nasceu a possibilidade, única no plano local, da criação em Setúbal da Casa dos Pescadores, organismo multiforme que não se limitou a ser um órgão de reivindicações de classe, mas veio a ser uma Central Sindical, aberta a todos os trabalhadores e, pelo sucesso criado, visitada por personalidades cultas, não só do País, mas de fora. A Casa dos Pescadores era exemplo de associativismo, era centro de numerosas reivindicações, e era escola e era museu. Jaime Rebelo dedicou-se desde sempre a esta memorável instituição, ali se formando o melhor que um homem culto pode adquirir: uma cultura humanista, uma consciência de vida social, libertadora da individualidade própria.

Veio, porém, o momento que a todos os lados chegou, em que toda esta obra digna de todos os aplausos, sossobrou, varrida pelo vendaval da Ditadura iniciada em 28 de Maio de 1926 e que veio a durar meio século. Os bandidos da ditadura Salazarista prenderam, assassinaram, deportaram os melhores elementos e a Casa dos Pescadores fechada e o seu edoficio vendido por pequena quantia a um oficial da armada, que era capitão do porto, até que após o 25 de Abril voltou à posse dos trabalhadores.

Jaime Rebelo ultrapassou o meio local em que era militante acatado pro todos, e a sua acção estendeu-se, no seio da C.G.T., a todo o país, e, mais trade, a Espanha, durante a Guerra Civil, onde praticou actos de indiscutível valor. Além das prisões protuguesas e da deportação, Jaime Rebelo veio, na hora da derrotam a conhecer is campos de concentração de refugiados em França, em companhia da sua companheira espanhola Eloise Gutierres, com quem veio mais tarde a unir-se, falecida já sua legítima esposa Miquelina.

Este nosso inesquecível companheiro, nascido em Setúbal, em 22-12-1900, faleceu em Lisboa na madrugada do dia 7 de Janeiro de 1975. O funeral realizou-se em Setúbal, no dia 8, e constituiu uma manifetsação de pesar digna da sua personalidade inconfundível, Era filho de Gonçalo Rebelo e de Leopoldina Amélia.

Revisor do jornal «República», desde 1 de Março de 1968 e ultimamente do nosso colega «A Batalha», tornou-se sempre digno, como é próprio dos autênticos libertários, do apreço de quantos com ele trabalharam."

Relacionado: https://memorialibertaria.blogs.sapo.pt/jaime-rebelo-o-anarquista-da-boca-13020

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https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4280577

 

06
Jan23

Revista "Flauta de Luz" assinala este ano o 10º aniversário


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A revista Flauta de Luz, editada em Portalegre por Júlio Henriques, começou a publicar-se em Janeiro de 2013, completando, por isso, este ano o seu décimo aniversário. Enquanto se aguarda pelo nº 10, reproduzimos o Prólogo da 1ª edição em que Júlio Henriques destaca aquelas que serão as marcas essenciais da revista ao longo dos anos: a luta contra a complexização duma sociedade em que cada vez se acentua mais o fosso entre os que têm tudo e os que não têm nada, procurando encontrar as formas de resistência que fizeram que várias sociedades ditas «primitivas» tivessem podido existir até aos nossos dias, assentes em modelos bem diferentes das sociedades ditas «modernas».

"PRÓLOGO

Pode parecer estranho pensar que a complexidade das sociedades resulta, não da simples evolução do Progresso, mas, mais propriamente, de uma guerra social. Esta guerra, que vem de longe e que nos nossos dias continua a içar-se a mais sofisticados patamares, ficou bem documentada no movimento luddita contra a mecanização do trabalho, nos primórdios da revolução industrial em Inglaterra: o exército mobilizado contra os trabalhadores em revolta chegou a ter mais soldados do que os destacados pela monarquia britânica para combater as tropas napoleónicas na Península Ibérica.

A complexificação da «soeidade moderna» tem sido a resposta das classes dominantes às tentativas populares para pôr em causa o seu domínio e criar qualquer coisa de decente. Deste modo, quanto mais «complexa» é a organização política e económica, mais opaca se revela a tirania de facto que incrementa tais coisas, medrando a olhos vistos os seus meândricos poderes e prosperando o carácter mafioso de que se revestem os negócios. 

Nesta opacidade expande-se o reino dos organizadores da humanidade-massa, dos agentes secretos da economia, , dos peritos das necessidades policiais e militares, dos especialistas da gestão de homens-números, multiplicando-se ao mesmo tempo os muros das hierarquizações implacáveis - imprescindíveis ao prosseguimento deste sistema.

Enquanto isso, a propaganda estatal e económica, hoje requintadamente crismada "comunicação", encarrega-se desde há muito de de fomentar uma ideia sedutora: esta complexidade é sinónimo de enormes progressos, correspondentes à evolução humana para os píncaros da Técnica: já há turistas que querem ir à Lua e os serviços de marketing das viagens espaciais têm certamente na manga outros paraísos - outros produtos. E o profundo desejo deo novo homem se entranhar na Máquina cria uma mística adrenalínica impulsionadora de imparáveis descobertas - e de lucros a perder de vista.

Este discurso, variado na sua diarreica repetição, nos seus agentes e suportes, conquistou entre a população adeptos suficientes para lubrificar em permanência os motores mentais do Desenvolvimento, não podendo a Complexidade  deixar de ser vista como um grande Símbolo do que existe de superior.

Ora as sociedades superiores são estas onde podem viver lado a lado, na mais intensa legalidade, pessoas com tudo e pessoas sem nada, ricos que enriqyuecem e pobres que empobrecem, sem que isso perturbe os avançados princípios em que se estriba a «comunidade nacional». Ao invés, para a antropologia do capital, as sociedades inferiores são as «primitivas», porque nestas é ilegítimo o fosso das diferenciações sociais.

É entre estas, arcaicos como somos num mundo telecomandado à distância por poderes altamente predadores, que cremos ser imperativo apreender noções extintas na cultura do capital, alicerçada em várias corrupções estruturantes, onde a economia - pretenso altar da concretude - é uma ideologia disfarçada de ciência e a democracia (pralamentar) o rosto publicitário da tirania contemporânea. A pluralidade que o «mundo moderno alardeia é fogo de vista. O modo de vida capitalista, totalidade expansionista, não admite que coexistam com ele modos de vida em que não se reveja.

Isto é notório perante os povos vernaculares, para quem a vida não se reduz a uma mercadoria e o mundo não é uma coisa, chegando a revelar-se desesperada a sua resistência ao rolo compressor do Progresso & Desenvolvimento, como quando perefrem suicidar-se a render-se à «modernização». Pelo simples facto de permanecerem, estes povos, de raízes milenares, realizaram a mais extraordinária das façanhas históricas: chegar ao nosso tempo.

O presente bolettim tem como antepassados as revistas Subversão Internacional (Lisboa, 1977-1981) e Pravda - Revista de Malasartes (Coimbra, 1982-1992), bem como diversas incursões nas revistas Utopia, Coice de Mula e Cadernos Periféricos. Os primeiros números desta publicação coigem textos de vária procedência que tendem para um diálogo subversor dos fundamentos do presente sistema imperial.

Júlio Henriques"

Relacionado: 

https://revistaalambique.wordpress.com/2013/03/09/flauta-de-luz/

https://www.jornalmapa.pt/2014/06/08/flauta-de-luz/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/12/28/nota-de-leitura-flauta-de-luz-no-3/

05
Jan23

Há 14 anos a polícia assassinou um jovem de 14 anos no Bairro de Santa Filomena, na Amadora. O agente que o matou foi ilibado.


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Passaram ontem 14 anos sobre a morte pela polícia de Kuku (Elson Sanches), um jovem negro, de 14 anos, no bairro de Santa Filomena, na Amadora.

Este assassinato teve uma ampla repercussão em diversos sectores da sociedade portuguesa, nomeadamente entre os anarquistas, motivando diversas manifestações nas semanas e meses posteriores.

Segundo a Plataforma Gueto, citada pela Rede Libertária, que divulgou incessantemente todas as iniciativas de solidariedade, a morte de Kuku, foi “mais uma execução sumária, com pena de morte, dum jovem negro por parte da polícia, e um julgamento injusto feito no tribunal dos media, que condenou o nosso irmão e absolveu mais um assassino.

Uma perseguição policial do passado domingo, 4 de Janeiro às 21h, ditou a morte de Kuku, com apenas 14 anos.

Segundo a versão "oficial" de fontes policiais os agentes identificaram o carro furtado, onde seguiam 4 jovens, no bairro de Santa Filomena. Por não terem respeitado a ordem para parar, a polícia iniciou uma perseguição que só acabou no bairro da Quinta da Lage quando os jovens abandonaram o carro e continuaram a fuga a pé. Depois de terem disparado tiros para o ar, a polícia alega que Kuku, que foi o último a sair da viatura, apontou uma arma de calibre 6.35 a um agente, tendo este, em legítima defesa, disparado um tiro que o feriu mortalmente na cabeça. Outro irmão foi ainda atingido com uma bala na perna.

Ainda na sua versão oficial a polícia declara que o agente não atirou para a matar. Quem não quer matar não aponta uma arma à cabeça, portanto a intenção do agente era matar ou teria apontado a outra parte do corpo.

Na manhã seguinte os media iniciaram a sua propaganda, usando apenas as fontes policiais, para sujar a imagem do jovem e legitimar a acção do polícia, alegando que se tratava de um jovem referenciado por crimes violentos.

Com esta propaganda os media conseguiram transmitir a ideia de se tratar dum jovem violento que era uma ameaça para os agentes, e para a sociedade, bem como glorificar a polícia por mais uma "missão cumprida": assassinar um negro.

Como se não bastasse a idade de Kuku, 14 anos, para que este não pudesse ser considerado um criminoso violento, o mesmo foi referenciado como tal apenas por furtos, dos quais não resultou nenhuma condenação. Ainda que tal tivesse acontecido, em nenhum dos casos houve uso de violência. Tendo em conta aquilo os media têm propagandeado nos últimos meses como "criminalidade violenta" só prova que esta usa e abusa de tais critérios sem nenhum rigor para operar a sua propaganda racista e continuar a fomentar o medo dos imigrantes seus descendentes na opinião publica.”

Anos depois (2012) o polícia que matou Elson Sanches foi absolvido pela juíza do Tribunal da Amadora que julgou o caso, tal como, em geral, acontece sempre que a policia é acusada de mortes ou actuações violentas. O Estado defende sempre os seus algozes.

Relacionado:

https://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/jovem-de-14-anos-baleado-na-cabea-por.html

https://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/agente-da-psp-que-baleou-kuku-este.html

 https://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/uma-das-vises-sobre-o-que-se-passou-na.html

https://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/concentrao-contra-represso-policial-por.html

https://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/dia-17-de-janeiro-sbado-s-16h-vem.html

https://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/relatrio-pericial-prova-que-o-psp.html

https://redelibertaria.blogspot.com/2009/01/24-e-31-de-janeiro-20h-jantar-benefit.html

 

 

 

24
Dez22

No final de 2014 a AIT-SP publicou o último número do Boletim Anarco-Sindicalista


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Em finais de 2014 saía aquele que seria o último número do boletim trimestral da Secção Portuguesa da Associação Internacional dosTrabalhadores constituída no final dos anos 90/início de 2000. O Boletim Anarco-Sindicalista nº 47, com 12 páginas, divulgava seis endereços electrónicos relativos a núcleos ou contactos locais da AIT-SP em Lisboa, Porto, Guimarães, Coimbra, Algarve e Setúbal, bem como uma série de lutas em todo o país. Anunciava também a realização no Porto, a 5 e 6 de Dezembro desse ano, de um Congresso Extraordinário da AIT (já em processo de convulsão interna, que levaria mais tarde à saída de diversas organizações da AIT e à constituição da CIT - Confederação Internacional do Trabalho, em 2018).

Embora este seja o último número do Boletim Anarco-Sindicalista, a AIT-SP manteve-se em actividade até ao inicio de 2017, com presença em diversas lutas e também nas redes sociais (aqui) e (aqui).

Para além do Boletim Anarco-Sindicalista, a AIT-SP publicou também dois números da revista teórica Apoio Mútuo, com artigos mais desenvolvidos sobre o anarco-sindicalismo.

Seria bastante útil que companheiros que estiveram ligados à AIT-SP fizessem um pequeno historial desta organização (fundação, principais actividade e núcleos, processo de extinção, etc.) que, durante os anos da sua existência, foi muito activa e que desenvolveu um trabalho importante na divulgação do anarco-sindicalismo e da auto-organização dos trabalhadores, através da acção directa e sem mediadores. Teve também um papel relevante nos contactos internacionais com as principais organizações anarco-sindicalistas do continente europeu.

21
Dez22

Há 40 anos era publicado o livro de Edgar Rodrigues "A Oposição Libertária em Portugal (1939-1974)", o último de quatro volumes sobre a História do Movimento Libertário em Portugal


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Há 40 anos, em dezembro de 1982, com a publicação de "A Oposição Libertária em Portugal (1939-1974)", o militante e historiador anarquista Edgar Rodrigues concluía a sua resenha sobre o movimento anarquista em território português, iniciada em 1980 com "O Despertar Operário em Portugal (1834-1911)" e em 1981 com "Os Anarquistas e os Sindicatos (1911-1922)" e "A Resistência Anarco-Sindicalista à Ditadura (1922-1939)", todos editados pela Editora Sementeira (ligada ao grupo editor de A Ideia). Este trabalho de longo fôlego, repleto de dificuldades e de lacunas, derivadas da distância (Edgar Rodrigues estava radicado há longos anos no  Brasil) e da incompreensão de alguns companheiros, como o autor refere no preâmbulo à obra, constituiu-se, no entanto, como de enorme importância para o estudo do papel dos anarquistas na oposição à ditadura.  Durante décadas, os comunistas e uma parte substancial da oposição, muitas vezes por desconhecimento, mas na maior parte dos casos por má fé,  apregoavam que o anarquismo tinha morrido depois do 18 de janeiro de 1936 e das prisões em massa ocorridas até ao final da década de 30. No entanto, este trabalho veio provar, através da mais variada documentação e da biografia de muitos militantes anarquistas, que, embora debilitado, o movimento anarquista manteve-se vivo durante grande parte da vigência do regime fascista em Portugal a ele se opondo e resistindo na clandestinidade.