Testemunho de um anarquista no dia 25 de novembro de 1975 em Lisboa
Barricada junto à PM, na Calçada da Ajuda
Há já várias semanas que se percebia um agudizar da conflitualidade política, nomeadamente com a tensão entre os vários sectores militares: Copcon, Grupo dos Nove, Esquerda Militar. Jovem militante anarquista, na altura com 18 anos, trabalhava numa grande empresa com sede no Restelo, com oficinas onde trabalhavam dezenas de operários; em Setembro tinha participado na manifestação dos Deficientes das Forças Armadas, quando foram ocupadas as portagens de acesso a Lisboa e assistido à manifestação dos SUV (Soldados Unidos Vencerão), claramente alinhados com os partidos da esquerda revolucionária e, mais tarde a 27 de Setembro participado com outros anarquistas e gente da extrema-esquerda no assalto ao consulado e à residência do embaixador de Espanha, como protesto pela execução de cinco antifascistas pelo regime de Franco.
A tensão aumentava de dia para dia, e enquanto durava a ocupação dos estúdios da Rádio Renascença pelos trabalhadores mais radicais, transformando a rádio da igreja num porta-voz das lutas populares, o governo ordena a destruição com várias cargas explosivas dos seus emissores na Buraca, a 7 de novembro. Eu, e vários companheiros anarquistas estivemos em vigilia junto aos emissores, não podendo evitar, no entanto, a sua destruição, e dias depois na grande manifestação da construção civil que cercou São Bento.
Enquanto no RALIS se faziam juramentos revolucionários, o Conselho da Revolução decide substituir Otelo por Vasco Lourenço no comando da Região Militar de Lisboa.
É neste ambiente pesado e febril que, no dia 25 de novembro, uma terça-feira, enquanto me dirigia para o trabalho logo de manhã, pelas conversas, se percebia que estava a acontecer alguma coisa e, em concreto, que os paraquedistas estavam a ocupar diversas bases aéreas, suscitando uma forte reação das estruturas militares mais conservadoras.
Mas a informação de que se dispunha era mínima.
Embora estivesse organizado num dos grupos que orbitavam “A Batalha” e a sua sede na rua Angelina Vidal, mantinha contactos estreitos – como muitos anarquistas – com militantes da LUAR, nomeadamente dos Olivais que tinham um contacto próximo com o RALIS.
Ao meio da tarde, quando deixei o trabalho, desloquei-me para os Olivais, para uma casa particular onde se reuniam diversos elementos da LUAR. Ali as informações eram mais completas e soube-se que se mantinha um braço de ferro, que podia acabar em conflito armado, entre as componentes mais progressistas dos militares e os sectores mais conservadores.
Temendo um possível ataque da aviação ao RALIS, e como o apartamento em que estávamos era perto e tinha grandes vidraças, colámos grandes porções de fita cola aos vidros para em caso de explosão não se estilhaçarem.
Mais tarde, enquanto iam chegando mais informações, assistimos na televisão à intervenção de Duran Clemente ser interrompida, tomando as forças de direita o controlo da RTP, a partir dos estúdios do norte.
Apesar do estado de sitio e do recolher obrigatório terem sido impostos, ao principio da noite saímos de carro para a zona de Cabo Ruivo, onde havia na altura muitas fábricas e oficinas com centenas de operários. Em praticamente todas a que fomos as comissões de trabalhadores estavam presentes, dispostas a resistir caso houvesse confronto com as forças de direita. No entanto, à medida que o tempo passava, a desmobilização aumentava e por volta das 10/11 da noite fomos informados que a máquina do PCP tinha comunicado aos trabalhadores que não havia qualquer resistência a fazer e que o melhor era desmobilizar.
Nessa noite permanecemos em alerta no apartamento dos Olivais, tentando perceber quais os passos a dar, mas apenas o que se sabia é que o levantamento dos paraquedistas tinha sido controlado e o estado de sítio impedia grande parte dos contactos (naquela altura ainda sem telemóveis, nem computadores...).
Na manhã seguinte, a 26, fui de novo trabalhar, mas decidi passar pelo Regimento da Policia Militar na Calçada da Ajuda, antes de ir para o Restelo (perto do atual Ministério da Defesa). Mal tinha acabado de chegar, a multidão que ali estava viu-se surpreendida pela chegada dos chaimites dos comandos, chefiados por Jaime Neves, que começaram a disparar contra a PM, que ripostou. Do tiroteio resultou a morte de dois comandos e de um PM.
Nessa noite, Melo Antunes, do grupo dos nove interveio na televisão afastando o cenário de um golpe da extrema-direita e referindo que, ao contrário do que circulara, o PCP (e por arrasto as outras organizações de esquerda e extrema-esquerda) não seria ilegalizado.
O estado de sitio durou 8 dias, só sendo levantado por Costa Gomes a 2 de dezembro. Nessa altura já a maioria de nós tinha a sensação de que a “revolução” acabara e a normalização da situação política estava em curso, matando quaisquer ilusões revolucionárias no futuro mais próximo. Já morta a revolução em Lisboa, decidi abandonar a “capital do Império” e rumar a outras paragens onde esperava ainda encontrar o “halo revolucionário”, nomeadamente em terras da Reforma Agrária e do cooperativismo agrícola. O que fiz. Um mês depois já tinha abandonado o emprego e estava a apanhar azeitona numa cooperativa agrícola, mas também aí – como iria perceber depois – os tempos também já eram de refluxo.
Depoimento de J.C.M, recolhido por L.B em 22/11/2025
