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Memória Libertária

Documentos e Memórias da História do Movimento Libertário, Anarquista e Anarcosindicalista em Portugal

Documentos e Memórias da História do Movimento Libertário, Anarquista e Anarcosindicalista em Portugal

Memória Libertária

16
Jan23

Carta do MLM publicada no jornal francês Liberation a seguir aos incidentes da manifestação de 13 de janeiro de 1975 em Lisboa


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Carta do M.L.M.

 

ACONTECIMENTOS DEGRADANTES...

O Movimento de Libertação das Mulheres portuguesas decidiu inaugurar o Ano Internacional da Mulher, declarado pelas Nações Unidas, queimando os símbolos da opressão feminina, tais como o Código civil e penal, exemplares pornográficos que utilizam o corpo da mulher como objecto, esfregões e vassouras, etc., todos os tipos de Iiteratura «machista», fraldas (simbolizando o mito da maternidade — enquanto a lei dá apenas ao pai todos os direitos sobre os filhos…).

Os filhos de algumas feministas tinham voluntàriamente decidido participar na manifestação, queimando brinquedos que determinam, desde a infância, o papel reservado a cada sexo na sociedade: metralhadoras e tanques para o rapazes, bonecas para as raparigas.

Seis horas da tarde: quinze feministas chegam ao Parque Eduardo VIl, vestidas de «vamp», com vestido de noiva, disfarçadas de mulheres grávidas, de donas de casa, etc. A imprensa anunciou alguns dias antes esta manifestação como um «strip-tease». Para sua grande surpresa, milhares de pessoas (duas mil a cinco mil pessoas) — sobretudo homens — aguardam-nas. Durante três minutos, não se passa nada. Abre-se um círculo para as deixar passar. No momento em que acendem uma fogueira, o círculo fecha-se à sua volta, e começa a grande confusão: torna-se impossível queimar seja o que for. Chovem dezenas de insultos: «Vamos montá-las», «As mulheres só são boas para a cama», «As mulheres para casa», etc. (e mais todos os tipos de insultos intraduzíveis) acompanhados de gestos obscenos. Uma militante negra é coberta de injúrios: «Vamos fodê-la. As pretas são as melhores na cama.» Um pequeno grupo de mulheres que ostenta uma faixa com as palavras:  «Isto é ridículo», e que, no início, gritavam: «Elas é que deveriam ser queimadas», ao verem a brutalidade de que as feministas são alvo mudam ràpidamente de opinião e começam a gritar: «Vocês, os homens, é que são ridículos.» Um grupo de homens com as bandeiras e os emblemas do PCP (Partido Comunista Português) cantam o hino do Partido. As crianças presentes quase sufocam. As feministas tentam pô-las a salvo recuando para um carro estacionado ali perto, pertencente a uma delas. Mas os homens perseguem-nas, tentando virar o carro.

É então que uma das raparigas começa a gritar: «Querem matar-nos com os nossos filhos?» E é só então que eles param. Acabamos por nos refugiar num prédio, a uma centena de metros dali. E o carro é então imediatamente danificado por uma multidão de homens enraivecidos.

Mulheres simpatizantes, mas não militantes do movimento, que trazem cartazes ou que decidiram manifestar com as militantes, são agredidas — é o caso de uma senhora idosa de 60 anos que trazia uma vassoura. As forças da ordem chamadas à pressa recusam vir porque «há muita gente». As forças do COPCON (Comando Operacional do Continente) chegam ao fim da manifestação que não durou muito tempo — houve no entanto homens que ficaram durante longos momentos gritando diante da porta do prédio onde as mulheres se refugiaram, após terem despido completamente uma jovem de 17 anos que passava por acaso e que foi salva no último momento por um jornalista indignado.

Pode-se imaginar o choque e o mau-estar que persistem após todos estes acontecimentos degradantes, espelho de uma sociedade reprimida durante dezenas de anos por uma política baseada na ignorância e na repressão, na supremacia do homem, viril, herói, «garante destemido e irrepreensível» da religião, da pátria e da família, com uma mãe virtuosa, uma mulher sem mácula, uma irmã a defender das calúnias, e a puta com que se vai para a cama e de quem se diz (e a quem se faz) todo o mal possível.

Movimento de Libertação das Mulheres

(Jornal parisiense Libération, 4 de Fevereiro de 1975)

aqui:  MANIF MLM 1975.pdf

(agradecimentos a Ângelo Barreto e Helena Santos)

16
Jan23

Ainda sobre a manifestação do MLM, em Lisboa, a 13/1/1975: reportagem da RTP


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ver aqui

Lisboa, manifestação organizada pelo Movimento da Libertação das Mulheres é interrompida e boicotada por grupos de homens no Parque Eduardo VII. Homens dirigem-se e observam a manifestação no Parque Eduardo VII a 13 de janeiro de 1975; mulheres seguram cartazes rasgados; imagens noturnas de manifestantes; recortes de revista no chão.

16
Jan23

PAULO JOSÉ DIAS (1904 - 1943), assassinado pelo fascismo no Tarrafal


 

paulo josé dias.jpg

Sobre Paulo José Dias, morto no Tarrafal a 13 de Janeiro de 1943, de tuberculose, não há muitos dados. A sua morte é, no entanto, sentidamente relatada no livro do anarquista Manuel Francisco Rodrigues ("Tarrafal, aldeia da morte") que refere ter sido ele acompanhado até ao último suspiro pelo anarquista Joaquim Duarte Ferreira, um elemento destacado da Organização Libertária Prisional. 
 
*
 

Natural de Lisboa, nasceu a 24 de Janeiro de 1904, filho de José Paulo Dias e de Maria Picôto Dias. Fogueiro marítimo, libertário, foi preso em 7 de julho de 1939, "para averiguações" - segundo informação do Registo Geral de Presos da PVDE. Quinze dias depois, foi transferido para o Reduto Norte da Cadeia de Caxias.
Em despacho do Director da PVDE (capitão Agostinho Lourenço), de 29 de Fevereiro de 1940, foi determinado que se mantivesse em prisão preventiva, devendo ser transferido para Cabo Verde até se esclarecer a situação internacional [ este curioso despacho precede o envio de Paulo Dias para a 1.ª Esquadra, em 4 de Junho de 1940 e, de novo, para o Reduto Norte de Caxias em 7 de Junho de 1940.
Em 21 de junho de 1940, embarcou com destino ao Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde faleceu, com 39 anos de idade, a 13 de janeiro de 1943. (1)

(1) «Manuel Francisco Rodrigues, um dos tarrafalistas que sobreviveu à " aldeia da morte", assistiu à morte de Paulo Dias, que
morreu de tuberculose galopante, após 4 meses de cama. Escreveu no seu livro: " Dizia-me ele, três dias antes de morrer: -- A hora da justiça vai chegar e eu, que estou aqui injustamente, sem culpas , sem processo e sem julgamento, voltarei em breve abraçar os meus fllhos, sim, os meus filhos, pobrezinhos!...» À cabeceira da cama tinha uma moldura com as fotografias dos filhos e da esposa. Eram tão bonitos, os filhos!... Mas já não os verá mais. Já morreu!...»
In "Tarrafal, Aldeia da Morte" de Manuel Francisco Rodrigues, pág. 107.

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